Como nossos pais

Rosa, menina Rosa, vem que eu quero ver você sambar. Me disseram que você, menina Rosa, samba demais.Jorge Ben Jor

Levante às 6:00, acorde as crianças, arrume o café, leve na escola, vá trabalhar, reunião do trabalho, reunião na escola, cumpra metas, busque as crianças, visite a vovó, faça compras, faça a janta, ajude no para casa, resolva conflitos, coloque para dormir, conte história, arrume a casa, lave as louças, vá se deitar, faça sexo(?), e tudo de novo.

Essa é a rotina da personagem principal de Como nossos pais, que se equilibra entre ser mãe, mulher, funcionária, filha, esposa, empregada… tudo o que a mulher contemporânea, imersa em uma sociedade com origens patriarcais, deve ser e fazer. E tudo deve funcionar, e pra tudo deve haver tempo, e tudo tem que estar perfeito. Mas não está.

Com nome extraído de uma das canções lendárias de Belchior, o filme traz Rosa, que se equilibra em suas diversas funções, sem muito aparato do marido, enquanto precisa lidar com uma bomba que vem logo na primeira cena do filme. Dito com frieza pela mãe no almoço em família, Rosa é fruto de uma traição enquanto a mãe estava no exterior há 38 anos. E não para por aí.

Mas o que poderia ser uma sequência de dramas, um seguido do outro com alguns exageros do roteiro, abre espaço para reflexão e somos confrontados com uma realidade muito parecida com a nossa, em seus prazeres e desprazeres. Relação entre pais e filhos é posta em jogo, e cada papel é apresentado sem clichês, ganhando espaço até atingir uma das cenas mais belas do filme, em que mãe e filha dialogam e se enxergam.

Ao lado de Rosa, temos seu marido Dado, um intelectual que atua na preservação de tribos indígenas na Amazônia. Viajando sempre para cumprir seus projetos altruístas, Dado é um pai amoroso, mas pouco preocupado em educar, no sentido rigoroso, suas duas filhas, caindo mais uma responsabilidade sobre Rosa. Além de pouco preocupado com a organização da casa, também é Rosa quem paga as contas. Discutindo gêneros, mas sem crucificar seus personagens como o bom, o mal e o feio, engessando-os, o filme ganha novas texturas ao apresentar um retrato da dinâmica do casal, de forma a apreendermos o amor que um tem pelo outro e como é difícil estarem juntos. E percebemos que não se dá o que não se tem.

Reinando ao lado de Rosa, temos a mãe, com suas aparições fortes e marcantes. Se inicialmente somos apresentados a uma megera, tal imagem vai sendo diluída ao percebermos o quanto estamos ligados à perspectiva da filha. Contrastando com o pai de Rosa, um senhor doce, excêntrico e problemático, a mãe segura as pontas para administrar suas próprias dores e aceitar com serenidade as críticas muitas vezes justas, mas unilaterais que sobre ela recaem.

Perdido em meio a tantas atuações excelentes num mesmo filme, sem dúvidas encontrei aqui duas das mais belas atuações que vi neste ano, pois o que Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra fazem possui tanta força, tantos contrastes e tanta naturalidade, que me vi representado nelas, pego de surpresa a pensar na minha relação com meus pais e nas nossas semelhanças, e no quanto ainda temos a aprender um sobre o outro.

Sem contar que pensei quão prisioneiros somos de nossa própria rotina, apesar de muitas vezes ser cômodo estar inserido nela. E por isso faço uma oração pessoal. Pedro, menino Pedro, nunca pare de sambar, pois pra dar conta dessa lida, você tem que balançar.

Referência

1. Crédito de foto: farrago510 via Visual hunt / CC BY-NC-SA.

Pedro Daldegan

Pedro Daldegan

Mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é aluno de doutorado na mesma instituição, com ênfase em álgebra. Quando não está no cinema ou matematicando, é leitor, cozinheiro e poeta. Há boatos de que também desenha, mas só temos conhecimento dos seus deformados bonecos de palitinho.

%d blogueiros gostam disto: