O inferno são os outros

“[…]se, por alguma razão, você pensa conhecer e entender o mundo e as pessoas, tenha certeza de que você está num modo automático[…]”

A luz do sol ilumina os prédios, carros e pessoas na paisagem urbana com a qual muitos de nós estão acostumados. Essa mesma luz é refletida e chega aos seus olhos. A partir daí, todo um engenhoso aparato — elaborado durante bilhões de anos de evolução — processa essa imagem e a imprime diante de você. Em seguida, você — resultado de combinações genéticas, amores malsucedidos e outros trilhões de acontecimentos — interpreta o que se passa. Essa cidade é cinza demais, há pessoas demais, o trânsito é caótico, está frio, o tempo poderia estar mais agradável. Ou o contrário de tudo isso. E assim você enxerga.

Se, de certo modo, tudo só existe após a sua interpretação, é difícil não pensar que você é o centro do mundo. Muito provavelmente você já reclamou da senhora atrasando a fila do restaurante, da passageira do ônibus que contava o dinheiro diante do trocador.

Contudo, nunca é demais repetir: nem tudo é sobre você. Existem milhares de razões para a passageira não ter trocado o dinheiro do ônibus. Talvez ela tenha se atrasado para o trabalho porque dormiu pouco na noite anterior. Mãe solteira, ela precisou cuidar do filho durante toda a noite. Talvez, na mesma manhã que você pegava o seu ônibus, ela tenha arrumado a criança, dado de comer e corrido até a creche pública para deixá-la. No correria, ela se esqueceu de separar o dinheiro como fez todas as vezes antes de pegar o seu ônibus.

E existem outras milhares de razões para a senhora do restaurante demorar mais que o aceitável (por você) na escolha de sua refeição. Talvez ela more sozinha e já não seja mais capaz de cozinhar o próprio almoço após anos dedicados ao preparo da alimentação dos filhos que já não a visitam mais. Talvez ela sofra com o alto colesterol ou tenha intolerância a glúten. Ou talvez ela tenha a saúde perfeita, mas aquele dia se sentia mais nostálgica e sofria com saudade dos tempos em que ia exibir tornozelos na praça da cidade.

Se tudo isso lhe parece improvável, saiba que a estimativa é de que 69.065.580 de pessoas tenham intolerância a glúten [1]. E, segundo o ministério da saúde, 40% dos brasileiros têm problemas com colesterol [2]. Saiba também que apenas no Brasil vivem mais de 20 milhões de mães solteiras [3].

Se, por algum motivo, você julga ter conhecimento perfeito da realidade, se, por alguma razão, você pensa conhecer e entender o mundo e as pessoas, tenha certeza de que você está num modo automático, pois sempre existirá uma alternativa que você não considerou. E no fim do dia, quando o sol se esconder atrás dos mesmos prédios cinzas, caberá a você decidir como conduzir a sua vida. Caberá a você decidir se o seu sol iluminará o mesmo mundo hostil do dia anterior ou o mundo menos inoportuno das possibilidades.

Referências e comentários

1. Estatísticas sobre intolerância a glúten;
2. Estatísticas sobre colesterol;
3. Estatísticas sobre mães no Brasil;
4. A fotografia deste texto foi tirada pelo autor na avenida Antônio Carlos em Belo Horizonte num fim de tarde de maio. Você pode ver outras fotografias em sua conta no Instagram clicando aqui.

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

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