A crise dos trinta e o brilho do passado

Numa belíssima carta a Tom Jobim, Vinicius de Moraes escreveu sobre nostalgia. Na época, o poeta contava ao maestro a tristeza de se descobrir diabético. Embora trouxesse má notícia, a carta sofria, na verdade, era de saudade. Vinícius sentia saudade dos seus papos de anjo, doce feito de ovos e açúcar.

Hoje, a proximidade dos trinta anos de idade faz meus amigos abraçarem o mesmo sentimento nostálgico. Talvez não em cartas, mas em conversas de bares e grupos de WhatsApp. Tornou-se impossível evitar o assunto. São reclamações da nova suscetibilidade aos efeitos do álcool (mesmo a ciência comprovando que não, não estamos ficando menos resistentes) acompanhadas por um sentimento saudosista dos tempos da faculdade.

Reconheço que talvez seja impossível atingir certa maturidade na vida sem olhar para trás. Estamos a todo instante reescrevendo nosso próprio passado, apesar de nem sempre conscientes desses truques da mente. E sob a luz do presente, o passado acaba adquirindo mesmo certo brilho.

Perdido neste vasto campo das lamúrias, peguei-me desprevenido pensando a respeito de uma dessas queixas. Ouvida às quatro da manhã numa conversa de bêbados e agora resumida às doze horas de uma bela tarde de abril: você se arrepende das decisões que tomou no passado?

Confesso que essa pergunta me marcou. Escondeu-se em algum canto da minha mente e sem avisar dava as caras durante semanas. É bem claro para mim que me arrependo de atitudes que tomei e de outras que deixei de tomar no passado, contudo, posso dizer que, no final das contas, ainda me sinto em paz com a minha história até aqui. A verdade é que só sou satisfeito com as decisões que tomei na vida porque todas elas me levaram ao encontro de pessoas maravilhosas. E se a vida é tão sensível a pequenas mudanças, se existe mesmo o efeito-borboleta, então prefiro, mesmo que fosse possível, não mudar nada. Hoje, depois de muito pensar sobre o que de fato é importante para a minha experiência como ser humano, ficou evidente que ter conhecido um bocado de pessoas impressionantes foi o melhor presente que recebi da vida. O meu maior legado, no fundo, foi para mim mesmo: as amizades que tenho e o amor que elas despertam em mim. E tudo isso, devo, pelo menos em partes, às decisões erradas que tomei no passado. Por isso, às burradas feitas na vida, deixo aqui o meu sincero e singelo muito obrigado.

Referências e comentários

1. A carta citada no primeiro parágrafo se encontra no livro Pois sou um bom cozinheiro. A obra reúne receitas citadas por Vinicius em cartas aos amigos. É o mais poético livro de receitas já publicado no universo.

2. A referida obra foi um presente de uma dessas pessoas que as burradas da vida colocou em meu caminho: meu brotinho!

3. A foto do cabeçalho foi tirada por mim numa tarde de abril há um ano. Você pode conferir outras fotos na minha conta no Instagram http://www.instagram.com/rbribeiro/

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

3 comentários em “A crise dos trinta e o brilho do passado

  • 24 de abril de 2017 a 23:12
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    Sempre quando eu penso neste questionamento, eu me lembro do livro ” A insustentável Leveza do Ser”, em que o Kundera fala:

    “Não existe meio de verificar qual é decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa,a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é esboço de nada, é um esboço sem quadro”

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