Dica de série: Merlí

A primeira temporada de Merlí tem um grave defeito. Ela acaba.

Em tempos em que a Base Nacional Comum Curricular está em discussão, Merlí acerta ao nos lembrar porque conteúdos como filosofia e artes são importantes na formação dos estudantes, desde que devidamente lecionados. Ensinar os alunos sobre as diferentes formas de pensamento e expressões artísticas que nos precederam ajuda a entender e refletir sobre nossa realidade atual. Logo no primeiro episódio a série dá sua bofetada:

A Filosofia serve para refletir. Refletir sobre a vida, sobre o ser humano. E para se questionarem as coisas. Provavelmente, é por isso que a querem eliminar, não? Consideram-na perigosa. Merlí

Merlí, personagem que dá nome à série, é um professor de filosofia nada ortodoxo. Com sensibilidade e honestidade, ele se aproxima dos estudantes não somente para ensinar, mas para ouvi-los e entendê-los nesta fase difícil que é a adolescência. Tirando por base os percalços dos jovens que o cercam, em cada episódio nos é apresentado um filósofo diferente, e suas ideias são aplicadas às situações cotidianas. Merlí leva os alunos para fora de sala e os faz ter uma nova experiência de aprendizado, incitando-os à reflexão sobre assuntos que vão desde a relação de pais e filhos, política, até sexualidade e respeito ao próximo. O diferencial da série é que os assuntos são tratados sem maquiagem, e Merlí, apesar dos seus numerosos comportamentos duvidosos, também amadurece no decorrer da história.

Bem, meu nome é Merlí, e quero que a Filosofia os deixem excitados.Merlí

Criando um contraponto com a personalidade ímpar de Merlí, Eugeni é outro personagem da série, um professor ortodoxo que desde o primeiro instante causa má impressão no primeiro por causa da sua personalidade pomposa e seu comportamento egoísta. Tratando os alunos como seres inferiores e não pensantes, Eugeni representa alguns dos professores e educadores que nos cercam, que utilizam de coerção ou desprezo para lustrar o próprio ego e se fazer ouvir.

Não me faço colega dos jovens. É importante manter a distância entre professor e aluno. Eugeni

Um dos pontos mais interessantes na série é que ela se utiliza da diversidade na sala de aula para abordar seus diferentes temas, cada vez focando seus episódios na vida pessoal de um aluno. Entre as histórias principais, temos Bruno, filho de Merlí, que vive o período conturbado de ter seu pai como professor ao mesmo tempo em que se descobre apaixonado por um dos seus melhores amigos, o aluno favorito do pai. É com o coração na mão que acompanhamos o garoto aprender a aceitar sua sexualidade ao mesmo tempo em que alimenta sentimentos por um amor fadado ao fracasso.

Apesar de não ser fácil administrar os diversos eixos dramáticos, Merlí consegue nos conduzir com sucesso através das histórias que entrelaçam pais, alunos e professores, mostrando simultaneamente o quão importante é não pararmos de questionar, enfrentar e modificar os padrões que nos cercam.

Espero que se divirtam e reflitam tanto quanto eu. Até a próxima, peripatéticos 😉

Links adicionais

1. “Câmara aprova exigência de filosofia e sociologia no ensino médio”.

2. “Reforma do Ensino Médio é aprovada no Senado”.

3. Crédito de foto do post: Visual hunt.

Pedro Daldegan

Pedro Daldegan

Mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é aluno de doutorado na mesma instituição, com ênfase em álgebra. Quando não está no cinema ou matematicando, é leitor, cozinheiro e poeta. Há boatos de que também desenha, mas só temos conhecimento dos seus deformados bonecos de palitinho.

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