Professores machistas

Como muitos adolescentes brasileiros, fiz pré-vestibular. O ano era o de 2006 e lá estava eu sofrendo para entender regra de três. Felizmente, hoje compreendo melhor vários dos assuntos ensinados no cursinho, porém um deles ainda segue sem explicação: os professores machistas.

No meu ano como vestibulando, as leis de Newton vieram acompanhadas das leis do machismo. “Mulheres!”, gritava insistentemente, o professor, quando citava exemplos físicos ligados às tarefas de casa. A conservação da energia mecânica veio de mãos dadas com a conservação da nossa triste estrutura social patriarcal. A tônica das aulas eram sempre as mesmas: mulheres não têm talento para exatas. Piadas machistas e comentários preconceituosos regaram praticamente todas as minhas aulas de física naquele ano.

É fato que todos riram. Eu ri. As próprias estudantes riram. Aparentemente, tratava-se apenas de uma brincadeira. Existe, inclusive, a possibilidade desta não ser a opinião do professor. Conheço gente que faz a piada que o público quer ouvir. Acontece. Brincadeira ou não, hoje, sob a sombra de alguma experiência e maturidade, vejo quão tóxico este machismo pode ser.

Uma de suas venenosas consequências é facilmente notada, pois está estampada nas lamentações de muitas estudantes. Resgatando os meus anos como monitor em pré-vestibulares e na UFMG, vejo-a com clareza. Enquanto escrevo este texto, diversas evidências se revelam das profundezas da minha memória. “Realmente, física não é pra mulher!”, “Nossa, sou incapaz de aprender matemática!”, “Nó, queria ser homem pra entender esse troço!” são algumas das frases que agora me ocorrem.

Contudo, ainda existe uma consequência silenciosa do machismo praticado por professores que talvez seja a mais cruel. Impossível de contabilizá-la, falo das muitas meninas que, desencorajadas pelos próprios mestres, simplesmente desistiram ou optaram por outros cursos e áreas, convencidas de que seu sexo as impedia de aprender.

Todo machismo é ruim e danoso. Porém, o machismo nos pré-vestibulares pode ser ainda pior, afinal ele se revela justamente na época em que a estudante precisa de confiança para escolher sua profissão e para descobrir seus talentos e vocações. Só hoje me faço a pergunta: como é aprender física e matemática num ambiente que faz questão de esfregar na sua cara “ei, isso não é pra você!”? Fico imaginando meu orientador me dizendo: Rodrigo, você não consegue aprender matemática, pois você é homem. Horrível é o primeiro adjetivo a coçar a ponta da minha língua.

Se por um lado a falsa ideia da incapacidade feminina para as exatas está tão introjetada entre os estudantes e professores, por outro, não consigo entender como ela ainda se sustenta. Como monitor, percebi que entre os melhores alunos sempre figuravam diversas alunas. Nas disciplinas que lecionei na UFMG para cursos como administração, relações econômicas internacionais, engenharias, sistemas de informação esta mesma estrutura se repetia: alunas sempre entre os melhores alunos. Digo mais, no último curso, o melhor aluno era de fato uma menina.

E aí, quando finalmente ponho os olhos no presente, noto que estou rodeado de mulheres competentes nas exatas. Uma grande amiga minha está entre os melhores alunos do departamento de matemática. Aos 21 anos, ela iniciou seu segundo mestrado em matemática na Suíça. Eu mesmo obtive o grau de bacharel em matemática acompanhado de mais três… mulheres. Sim! Mulheres! Todas elas, hoje, têm mestrado nas exatas e uma delas já ingressou no doutorado.

Seja quais forem as razões para o machismo persistir dentro das salas de aula, é certo que professores e alunos precisam combatê-lo. Uma boa forma de começar é, aliás, bem simples: simplesmente não ria.

Outros textos e referências

1. O tema machismo já passou pelo Só Que Sim! outras vezes. No texto Precisamos falar sobre estupro, gênero e machismo, o psicólogo e advogado Roberto Domingues discute as muitas faces da cultura do estupro.

2. No texto, O silêncio dos machistas, o autor discute a abordagem da violência contra a mulher no Enem.

3. A foto deste texto foi tirada por Rodrigo Ribeiro durante uma manifestação no ano de 2013.

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

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