As dores da alma não cabem no peito

Os mais atingidos pela crise caminham invisíveis pelas ruas, a pedir trocados para comer e fazendo da sarjeta sua morada.

Uma mulher me abordou num sinal de pedestres a caminho de casa. Chegou de maneira tímida, colocou certa distância para não me assustar, e gentilmente pediu-me algumas moedas para que comprasse algo para comer. Respondi que estava somente com meu cartão e que poderia comprar algo para ela na lanchonete ali perto. “Se não for nenhum incômodo, aceito sim.”, respondeu ela.

Ficamos ali parados, observando os carros que passavam. Um rapaz que estava por perto ouviu nossa conversa e deu algum dinheiro a ela. Atravessamos a rua e a mulher se manteve em silêncio. Seus olhos carregavam algo de delicado e esquivo, sua pele era marcada pelos muitos dias andando no sol quente, e os cabelos crespos corriam pelo rosto ossudo.

Ela queria conversar mas estava receosa, não queria me causar incômodo. Então perguntei “Você tem passado por dias difíceis?”. “Não – ela respondeu – estão bem mais leves agora que estou lendo a bíblia. Leio todos os dias, e está me fazendo bem. Não tenho do que reclamar.” Foi uma resposta um tanto inesperada, ao que ela continuou. “Sou muito ansiosa. Por exemplo, custei a pedir dinheiro ali. Fico muito envergonhada.” Disse que não tinha problema, e que não havia incômodo algum para eu ajudá-la. Acrescentei que via muita força nela, e para ela não perder isso. “Sabe, para controlar a ansiedade estou indo agora, uma vez por semana, numa psicóloga. Ela está me ajudando. Estou na rua há muitos meses, e isso me faz sentir meio doida de vez em quando. É bom ter com quem conversar.” Fomos atravessando e respondi que ficava feliz por ver que ela estava conseguindo ajuda. “E é bom, pois é gratuito!”, disse ela.

Chegamos ao outro lado da avenida e perguntei se ela tinha família. “Tenho sim, mas não estão sendo agora… – neste momento seu semblante escureceu – Mas como disse, a psicóloga está ajudando.” Entramos então na lanchonete e disse a ela para escolher o que quisesse. Ela pediu um pastel. Perguntei se ela queria também algo para comer mais tarde. “Hum… pode ser então um suco no lugar de outro pastel? Pra beber agora.” Meu coração deu um salto a menos. Disse que ela poderia levar os pastéis e o que quisesse para beber.

Enquanto eu estava no caixa pegando a ficha ela desviou o olhar para eu digitar a senha e perguntou. “Qual o seu nome?” Respondi que era Pedro. “Ah! É o mesmo nome do meu irmão, o mais próximo!”. Havia um sorriso bem bonito no rosto dela ao perceber a coincidência. “E o seu nome?”, perguntei. “Paula – ela disse – Muito obrigada, Pedro.” Segurei a mão dela nas minhas delicadamente e ela se assustou com o contato. “Desejo-lhe tudo de bom, Paula. Controle a ansiedade e não tenha vergonha de pedir ajuda.”

Ela ficou em silêncio me olhando ir embora. Ao passar a porta da lanchonete ouvi um tímido “Tenha um bom trabalho, obrigada!”, e fiquei com a impressão que ela me deu muito mais do que eu ofereci a ela. Sua simplicidade e sinceridade me comoveram. Fico pensando se algum dia voltarei a vê-la… E o que mais me chamou atenção foi perceber que, mais que comida, mais que dinheiro, o que de melhor eu ofereci, essa pouca troca de palavras, não tinha preço, nem para ela nem para mim.

Informação complementar

1. A imagem destacada é de autoria de Rodrigo Ribeiro.

2. A imagem do cabeçalho é de autoria de Dave Hall. via VisualHunt.com / CC BY-NC-ND.

Pedro Daldegan

Pedro Daldegan

Mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é aluno de doutorado na mesma instituição, com ênfase em álgebra. Quando não está no cinema ou matematicando, é leitor, cozinheiro e poeta. Há boatos de que também desenha, mas só temos conhecimento dos seus deformados bonecos de palitinho.

6 comentários em “As dores da alma não cabem no peito

  • 6 de setembro de 2016 a 01:14
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    Que texto forte… Que presente lhe foi dado!

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  • 22 de setembro de 2016 a 07:59
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    Nossa Pedro Henrique a sua sensibilidade de observação vai alem daquilo que já te conheço. A bondade e atenção aos outros faz agente olhar pra trás e srmos mais humanos. Um grande beijo filhote!!! Teenho muito orgulho de você! !!@#$$$@$♡♡♡♡☆☆☆☆

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  • 22 de setembro de 2016 a 15:25
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    Que lindo texto Pedro! Muito tocante!

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  • 23 de setembro de 2016 a 19:48
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    Oi Pedro eu e o André,
    Acabamos de ler o texto e achamos lindo

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  • 18 de outubro de 2016 a 22:51
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    Pedro meu chapa, por depoimentos assim que não perdemos a fé nas pessoas.

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