Aula não importa

Falei dos alunos. Agora falo dos professores. Como profissão, parece com qualquer outra. Na universidade pública, o fato de não sermos forçados a gerar lucro não quer dizer que não sejamos pressionados pela “produção” (essa palavra é muito repetida, banalizada, vulgarizada, naturalizada em nosso dia a dia acadêmico sem que a gente se dê conta de que ela vem de… “produto”!). Sim, claro, tem professor adepto da lei do menor esforço e que reza pro mundo acabar em barranco pra morrer encostado. Parece que em qualquer trabalho tem gente assim, não é? Mas a maioria rala bastante, inclusive se quiser ganhar mais: pra subir na carreira, o sujeito tem que mostrar serviço. E é aqui que a coisa complica: “mostrar serviço” é publicar bastante (artigo, de preferência em revistas altamente qualificadas e no exterior, o que não é fácil), ter muitos orientandos (de TCC, de mestrado e/ou de doutorado), participar de bancas (de TCC, de mestrado e/ou de doutorado), integrar comissões (de tudo quanto há) ou ocupar cargos (coordenador de curso e chefe de departamento são os mais comuns porque mais acessíveis, embora sejam rabos de foguete que todos evitam), organizar ou apresentar-se em eventos (simpósios, seminários e congressos) e desenvolver projeto(s) de pesquisa.

E aula? “Aula não importa”, como ouvi de uma colega. No produtivismo acadêmico, sobretudo as aulas de graduação “são apenas um número”, como ouvi de outra colega. Experimente achar no Lattes qualquer referência às aulas. Se encontrar, me avise, porque estou louco pra contabilizar lá as que dou. Quer dizer, aquilo que caracteriza o professor, isto é, professar (na sala de aula), não pontua no Lattes. Não devem causar espanto, portanto, as falas de minhas colegas: como “produto”, as aulas são menos importantes que o artigo, a comunicação num congresso, a comissão, a banca de doutorado ou o projeto de pesquisa. Isso tem consequências muito graves sobretudo para as Humanas, justo a área que tem mais professores e estudantes. A difusão de resultados de pesquisa por meio de artigos e comunicações funciona para as Exatas e as Biológicas – se bem que há denúncias de que nessas duas áreas também se publica coisas irrelevantes só pra pontuar. Nas Humanas, o tempo de maturação de uma ideia é longo e o caminho para chegar até ela é tortuoso. Podemos inclusive chegar a lugar algum: o caminho propriamente é o que pode interessar mais. O jeito como pensamos e escrevemos não cabe nos moldes da matemática, da farmacologia ou da física quântica. Então é difícil acreditar no colega que lhe diz, sem piscar, que teve doze artigos publicados em 2015. Não que ele esteja mentindo no número. O pior é que não está. Mas quem consegue escrever algo cientificamente relevante a cada trinta dias, enquanto participa de congressos, integra bancas, reúne-se em comissões, orienta mestrados e doutorados, redige incontáveis relatórios, lidera grupos de pesquisa e até dá aulas?

A sala de aula poderia ser um bom lugar para pensar junto com os estudantes, que assim aprenderiam as dores e as delícias dessa arte. Mas o produtivismo faz dela um fardo, um peso, um obstáculo do qual o professor tem que se livrar (dedicar-se demais às aulas é algo até mal visto), se não quiser ser taxado de improdutivo. Acredite: não há palavrão pior, para um docente universitário, do que esse. E o Lattes – e mecanismos internos parecidos que toda universidade pública tem – é o grande responsável por desmobilizar os professores e mantê-los atomizados, divididos, fechados em seus castelinhos ególatras, concorrendo entre si, produzindo adoidado não só para conseguir bolsas e promoções na carreira mas também para turbinar seu narcisismo, ostentando o quanto é produtivo – e, consequentemente, o quanto outros colegas não o são ou são menos ou deveriam ser. Nenhuma empresa conseguiu o que o Lattes consegue: fazer com que o sujeito realmente se envaideça de sua produção, convicto de que é o fodão, e com isso estimular ainda mais a própria produção.

Sou cético quanto à mudança desse quadro. Tendo a ser bastante pessimista, aliás: vejo que nas gerações mais jovens de professores universitários, que tem hoje entre 30 e 40 anos, o produtivismo está introjetado, por mais que haja críticos dele e por mais que se sinta literalmente na pele as consequências dele (depressão, problemas cardíacos, hérnia de disco, hipertensão…). A tal da produção virou um fim em si mesmo, e não consequência do pensamento que naturalmente se manifesta em artigos, livros, orientações, conferências e… aulas! Era isso que nos diferenciava dos demais profissionais: a liberdade de pensar, de administrar o próprio tempo, de inventar, de confrontar as diferenças, de expandir a subjetividade dos alunos e, com eles, a nossa, nessa busca incessante do saber. Com raras e honrosas exceções, hoje está tudo muito chato e careta, todo mundo sujeitando suas pesquisinhas e artigos a modelitos que funcionam como saias bem justas, impedindo qualquer expansão, qualquer atrevimento, qualquer originalidade. Não vejo alegria na maioria dos trabalhos que leio, vejo apenas necessidade. Necessidade de cumprir ritos acadêmicos que se tornaram etapas da carreira – isto é, aquela corridinha que a gente faz ao longo da trajetória profissional, que acaba sendo a única coisa a nos dar sentido à vida. Como se ela tivesse algum.

Um pouco mais do assunto

1. Em “Tá muito difícil, professor!“, o professor Joaci Furtado discute a postura de muitos universitários;

2. Em Como é dar aula no ensino superior e a corrupção na universidade, o professor Rodrigo Ribeiro conta suas experiências em sala de aula;

3. Você conferir outros textos a respeito da educação na nossa seção No intervalo!

4. Créditos da imagem. Photo via Visual Hunt

Joaci Pereira Furtado

Joaci Pereira Furtado

Graduado em história pela Universidade Federal de Ouro Preto, é mestre e doutor em história social pela USP. Foi editor de literatura e em ensaio da Globo Livros e criador dos selos de literatura Tordesilhas e Tordesilhinhas. Hoje é professor dos cursos de arquivologia e biblioteconomia da Universidade Federal Fluminense. É autor de Uma república de leitores (Hucitec) e organizou edição das Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga (Companhia das Letras).

%d blogueiros gostam disto: