Privatização do ensino superior

Quais as consequências de uma possível privatização do ensino superior para os estudantes?

A atual crise econômica e política no Brasil reacendeu um debate antigo: a privatização do ensino superior. Muito se fala das vantagens das privatizações. Em um editorial bastante controverso[1], o jornal O Globo deixou claro que é da opinião de que estudantes devem pagar por seus cursos superiores mesmo quando esses são realizados em instituições públicas. Porém, pouco se fala– e o artigo do jornal não foi diferente — das consequências da privatização para o público diretamente envolvido: os professores e os estudantes.

O The Wall Street Journal publicou uma matéria [2] a respeito das dívidas feitas por estudantes americanos para custear seus estudos. Os números são assustadores: 3.6 milhões de americanos estão há mais de um ano sem condições de pagar suas dívidas estudantis. A quantia devida chega aos surpreendentes US$ 56 bilhões (aproximadamente R$ 176 bilhões). Se a esta conta somarmos aqueles recém formados cujos atrasos no pagamento estão entre um mês e um ano, então o total da dívida salta para US$ 112 bilhões (aproximadamente R$ 358 bilhões). A verdade é que dos 22 milhões de americanos que utilizaram linhas de crédito a fim de custear formação superior, cerca de 43% estão com os pagamentos atrasados ou necessitaram adiá-lo. Estamos falando de 9.6 milhões de graduados cujos salários não são suficientes para cobrir os custos de sua formação.

Olhando a situação um pouco mais de perto, a BBC publicou uma matéria [3] abordando o dia-a-dia destes jovens. O artigo traz, entre outros casos, a história da jovem professora Carolyn Chimeri que terminou seus estudos com uma dívida de US$ 238 mil (aproximadamente R$ 754 mil) e hoje mal ganha o suficiente para arcar com as prestações aos 29 anos de idade. Veja a ironia, um professor não recebe o suficiente para custear sua formação como professor. Segundo projeções da própria Chimeri, ela espera quitar os débitos apenas em 2030. Embora complicado, o caso de Chimeri ainda pode ser considerado como dos menos graves, uma vez que, segundo os dados da reportagem do WSJ, mais de 9 milhões de americanos sequer são capazes de pagar as prestações de suas dívidas. O resultado desta situação calamitosa é o aumento dos casos de depressão e ansiedade entre os mais jovens como mostra a matéria da BBC.

Transporte agora este modelo de “ensino” para a realidade brasileira. Some, a todas essas dificuldades enfrentadas pelos americanos, os nossos altos índices de desemprego, salários baixos, inflação e instabilidade econômica. O que me diz? Faz sentido para você? Comente!

Qualquer discussão a respeito da educação deve ir no sentido de sua universalização e qualidade e não na direção do lucro. Cobrar pela educação é mais uma maneira de excluir. Mesmo em sociedades menos desiguais que a brasileira, o dinheiro continua sendo uma forma de segregar. Por fim, mas não menos importante, os resultados almejados por qualquer reforma da educação devem levar em consideração o bem-estar dos professores e estudantes. Afinal, estamos falando de pessoas e não de números e é sempre bom lembrar que por trás de cada número nos gráficos e estatísticas vive uma pessoa com sonhos e planos.

Edições: palavras do autor

Muitos são os argumentos a favor/contra a privatização do ensino superior. Porém, o objetivo deste texto é despertar um debate sobre o assunto que de fato leve em conta suas implicações para os profissionais e estudantes. Queremos fornecer dados concretos, de fontes confiáveis e entender experiências estrangeiras sem ignorar o nosso contexto. Semeamos algumas perguntas e deixamos para você, leitor, a tarefa de construir a sua opinião.

Referências

1. Crise força o fim do injusto ensino superior gratuitoJornal O Globo;

2. More Than 40% of Student Borrowers Aren’t Making PaymentsThe Wall Street Journal (em inglês);

3. A vida dos estudantes americanos com dívidas acima dos R$ 500 milBBC Brasil;

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

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