Mãe só há uma

Não escolhemos nossos pais, nossos irmãos, nem nossa família. Tampouco escolhemos quem somos. Somente nos domamos, nos adaptamos ao meio e somos domesticados por ele.

Pierre é um bonito garoto que está descobrindo sua sexualidade. Ele se deita com garotas, beija rapazes e se veste de mulher quando está sozinho no banheiro de casa. Anda com as unhas pintadas e participa de uma banda de rock. Ele mora com sua mãe e sua irmã. Eis que surge uma denúncia anônima e descobre-se que a mãe de Pierre roubou-o de outro casal quando ele nasceu, e que seu verdadeiro nome é Felipe. Daí começa o festival de horrores na vida do rapaz, pois sua mãe é presa e sua família biológica, cheia de esperança e expectativas, entra em cena para levá-lo “de volta pra casa”.

Imagine o turbilhão na cabeça dele. Após conviver 17 anos com uma mulher que ele considera sua mãe, sem falar no carinho que tem com sua irmã, ele é obrigado a viver numa casa totalmente estranha, com pessoas que não o conhecem e com as quais não possui afinidade. Pra piorar, todos os olhos estão voltados pra ele, e nenhum deles o compreende de verdade.

É interessante que o filme não toma partido da família biológica nem tampouco tenta justificar o roubo da mãe de criação. Seguindo seu curso, ele cumpriu assim o papel de me fazer pensar sobre como construímos nossas relações e sobre como nos construímos nesse processo, acalentando expectativas e sobrevivendo ou não a elas. Entretanto, apesar da ideia apresentada ser excepcional, sua execução deixou a desejar.

É necessário e importante que filmes atuais coloquem em evidência o tema sexualidade em tela. Mais importante ainda é que não sejam reservados lugares comuns. Na vida real há constrangimento, há preconceito, há violência, há descoberta, há desconforto. Então que os filmes atuais não só falem a respeito disso, mas que o façam com naturalidade e propriedade. Neste, se por um lado o ator que faz Pierre me transmitiu bem esse aspecto da sua personalidade, sua atuação deixou a desejar no tema familiar, que é o foco do filme. Não há um elo claro e orgânico entre os sentimentos dele com respeito à família e sua descoberta sexual. Não interagi com o personagem como um todo.

Já a direção derrapou ao incluir cenas díspares no meio do filme, como uma cena de namoricos na escola ou de uma aula no judô, que pouco acrescentaram e pouco conectaram. E dá pra ver tanto potencial, tantos pontos legais que poderiam ser aprofundados e trabalhados, que o resultado é um filme interessante, com ótimos momentos, mas sem a potência que geralmente me faz viajar no cinema, o que não descarta a reflexão que ele proporcionou.

Para quem quer uma amostra desse brilho que comentei acima, “Que horas ela volta?” é um filme da mesma diretora, Anna Muylaert, com Regina Casé *divando* ao interpretar uma empregada doméstica.

Até a próxima!

Informação complementar

1. A imagem destacada é de autoria de VisualHunt.

2. A imagem do cabeçalho é de autoria de Visual Hunt.

Pedro Daldegan

Pedro Daldegan

Mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é aluno de doutorado na mesma instituição, com ênfase em álgebra. Quando não está no cinema ou matematicando, é leitor, cozinheiro e poeta. Há boatos de que também desenha, mas só temos conhecimento dos seus deformados bonecos de palitinho.

%d blogueiros gostam disto: