As flores dos ipês

Sob uma brisa fria, eu desfrutava de uma boa leitura num banco da Praça da Liberdade. O céu limpo acomodava um sol solitário e tímido que pouco aquecia mas muito iluminava. Era uma tarde bonita, como só se pode ver no nosso generoso inverno de dezenove graus.

Em tardes assim, costumo me sentar no meio do banco para evitar outras companhias além da minha própria e de um livro. Contudo, naquela tarde, uma senhora insistiu em sentar-se ao meu lado ajeitando o corpinho miúdo na ponta direita do velho banco. Interrompi minha leitura para observar sua perseverança na árdua tarefa de carregar os muitos anos de vida e encontrar uma posição cômoda para os visíveis incômodos da velhice.

Alguns minutos depois, finalmente a senhora se encontrou sobre o banco. Delicadamente retirou um exemplar de Balzac de sua bolsa, que em outros tempos fora vermelha brilhante e agora tinha cor de verniz trincado. Suas trêmulas mãozinhas não escondiam as marcas dos anos, mas mostravam grande intimidade com o livro ao manuseá-lo com destreza e carinho. Seus dedos murchos e enrijecidos percorriam as páginas com satisfação enquanto nos lábios pintados por um batom vermelho esboçava-se um sorriso.

Por conta do meu estado de comoção e espanto com aquela pessoa, não fui capaz de retomar minha leitura. Ela era um sopro de vida vestido segundo a moda dos anos 50. Tive medo de que um mero espirro meu a fizesse se desmanchar pelo chão, ou ainda que fosse levada pelo vento leve que mal conseguia balançar as folhas das palmeiras. Era frágil, sim. Porém, tinha uma aura vibrante e colorida. Trazia sobre os cabelos ralos e prateados um pequeno chapéu de veludo, do qual saía uma telinha cujo nome vim a descobrir mais tarde: filó. Vestia um vestido coberto de flores rosas, como as que se desprendiam dos ipês, e se apoiava sobre sapatos de saltos desgastados e de uma cor que já não se podia mais dizer ao certo qual era. Via-se que se vestia como nos seus tempos de glórias em que ousava mostrar suas canelinhas de passarinho numa época em que os homens íam à praça admirar tornozelos.

Movido por um sentimento de compaixão e curiosidade, decidi abordar a pequena senhora. Minha aproximação se deu de maneira bastante inteligente e elegante. “A senhora vem sempre aqui?”, perguntei. Ela riu, certamente por pena da minha pergunta, mas respondeu: “Já vim muito. Hoje venho menos.” A resposta veio acompanhada de um longo e nostálgico suspiro que só foi interrompido por um celular que vibrava na sua bolsa cor de verniz passado. De lá, ela retirou um iPhone e respondeu a uma mensagem. A única dificuldade que teve foi devido à secura e ao tremor dos dedos que a obrigavam a tocar mais de uma vez os mesmos botões. E então, após aquela demonstração de aptidão tecnológica, ela disse sem tirar os olhos do aparelho: “É meu namorado. Conheci na internet.”

Créditos da imagem

Photo credit: Felipe_Borges via Visualhunt.com / CC BY-NC-ND

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

Um comentário em “As flores dos ipês

  • 26 de agosto de 2016 a 19:56
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    Fui atraído pelo título dos Ipês, talvez pela época, quando terminei a leitura percebi a beleza das palavras colocadas no lugar certo. Excelente texto.

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