O lar dos meus fantasmas

O sombrio e aterrorizante mundo debaixo de minha cama abrigou muitos dos meus fantasmas. Estavam todos lá à espera do menor dos meus deslizes. Desrespeitou os adultos? Tirou nota baixa? Atravessou a rua sem olhar para os dois lados? Todas as noites, reviam cada passo meu na esperança de um descuido que os permitisse puxar o meu pé e me aplicar castigos indizíveis.

Com os anos, outros fantasmas se juntavam aos antigos. Dividiam o guarda-roupa e se espremiam na greta da porta. O meu quarto, durante minha infância, serviu melhor aos monstros do armário e a brinquedos assassinos que a mim mesmo. Enquanto eles exibiam intimidade com o escuro, lá eu exalava desamparo.

Quando o horizonte do meu mundo deixou de ser a minha casa e os meus brinquedos, a revelação foi de uma terra tomada por monstros. As novas descobertas da vida vinham sempre acompanhadas de um novo fantasma capaz de me afastar do calor da minha família ou de me infligir uma eternidade de sofrimentos. Minhas primeiras brincadeiras na rua foram assistidas pelo homem do Opala preto e pelo Homem do saco. Seres perversos que raptavam crianças desacompanhadas e as transformavam em sabão.

Não demorei a perceber que na rua também habitavam criaturas cruéis farejando todos os meus erros. Nem mesmo os céus escaparam da sina de abrigar personagens desumanos. De lá, vinham os ETs e os chupa-cabras, exibidos exaustivamente por um programa de TV.

Já na adolescência, os monstros do meu quarto e da rua deram lugar a seres mais abstratos. Porém, não menos perversos. O Homem do Opala preto cedeu seu espaço para o receio do novo, os fantasmas do armário transformaram-se na necessidade de aprovação, enquanto os ETs deixaram os céus para a chegada do medo do fracasso. Monstros, estes, que ainda insistem em me visitar acompanhados do fantasma do desemprego e da derrota profissional.

Sob a luz da maturidade, a única certeza que tenho é a seguinte: se hoje, debaixo da minha cama, residem apenas meias esquecidas é porque no meu peito moram todas as mais contemporâneas formas do medo.

Referências

Photo credit: dhammza via VisualHunt / CC BY-NC-ND

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

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