O homem que nunca esqueci na Feira da Afonso Pena

Era domingo e tinha acordado cedo pra ir com minha mãe à feirinha da Afonso Pena. Eu quase nunca saia de casa, a não ser pra ir à escola, claro. Rapidamente comecei a experimentar minhas melhores roupinhas, queria escolher uma blusa bem legal pra vestir. Resolvi vestir uma blusinha que minha mãe tinha feito pra mim, ela era linda, com um estampado diferente, e achei que ficou bem em mim, me deixava com um estilo parecido com o dela. E eu acho minha mãe muito estilosa, então tava ótimo.

— Arruma logo que a gente vai atrasar, menina! – disse ela com aquela pressa.

Pegamos o ônibus e depois de mais ou menos uma hora chegamos ao Centro. Fomos direto para a feirinha.

Lá tinha tanta coisa bonitinha! – Espero que minha mãe compre muitas coisas pra mim, pensava.

Tinham várias blusinhas legais, dava vontade de comprar um monte. Mas compramos só um pouquinho porque senão ia gastar muito o dinheiro do meu pai. Minha mãe sempre dizia que não dava pra comprar muita roupa pra mim também porque eu ia crescer mais um pouco, e então ia perder todas rapidinho.

Depois que compramos o suficiente, fomos ver a parte de artesanato, só pra admirar mesmo. Tinham uns corredores nessa parte que estavam cheios demais, muita gente mesmo. Todo mundo querendo passar, me empurrando. Eu ficava até de mão dada com minha mãe porque eu tinha medo de me perder dela. Teve até uma hora que a gente passou por uma parte tão apertada, de tanta gente que era, que um moço sem querer colocou a mão um pouco dentro da minha blusinha, no meu peito.

— Isso deve ter acontecido por causa do movimento abrupto que ele fez pra passar naquela luta por espaço, e porque minha blusinha era um pouco cavada, aí talvez era mais fácil de alguém sem querer colocar a mão no meu peito se se esbarrasse em mim – pensava eu, um pouco confusa.

A gente andou mais um pouquinho. E de novo senti esse moço se esbarrando desse jeito esquisito no meu peito. Me senti mal, sabe. Essa feira tava tão cheia, mas esse cara devia tomar mais cuidado pra passar. Tava um pouco brava com esse moço me dando esses esbarrões mal-educados. Surpreendentemente, aquela esbarrada esquisita não foi a última. Poucos minutos depois, o moço pegou no meu peito esquerdo e ficou massageando-o. Dessa vez, eu senti muito e muito medo e minha única reação foi olhar pra trás, pra olhar pra ele. E a reação do moço foi fazer aquele sinal de silêncio, levando o dedo à boca.

Quando olhei novamente pra frente, vi que minha mãe estava a uns dois metros distante de mim, minha mãozinha não estava segurando mais a dela. A única coisa que eu pensava era que esse moço ia aproveitar esse momento, um dos poucos, em que eu estava ligeiramente distante da minha mãe, pra me levar embora pra sempre e fazer alguma ruindade comigo.

E então eu corri. Em direção a minha mãe, corri os dois metros mais longos da minha vida, já com o olho enchendo d’água.

— Mãe, um homem aqui ficou passando a mão no meu peito – disse eu, muito assustada, mas um pouco aliviada de ter a alcançado.

— Quem é ele? Me mostra, M!

— É aquele de boné amarelo.

— Por que você não deu um tapa na cara dele?

— Eu não sei, mãe.

Eu só queria ir embora, mas minha mãe queria correr atrás dele. Ela foi comigo até esse homem, tão brava como eu nunca vi na minha vida. Assim que ela chegou perto dele, ela o empurrou e começou a gritar várias palavras e frases como: – Peguem ele, gente, ele abusou da minha filha! – a feira toda olhava, mas ninguém se intrometeu, ninguém fez nada. Minha mãe queria levar ele na polícia, mas ele correu, ele fugiu. E então o que fizemos foi voltar pra casa.

— Isso já aconteceu muitas vezes com a mamãe também. Não fica triste. Passou. – disse ela, amargurada.

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Este texto faz parte da categoria Vou te contar. Uma seção do SQS dedicada às pessoas que desejam relatar casos de suas vidas.

1- No texto A primavera não chegou ao bloco cirúrgico, de Ana Cecília Borges, a médica relata as dificuldades encontrada pelas mulheres que buscam ser cirurgiãs;

2- Em Como me prostituí no intercâmbio N.B. relata um caso de solidão e prostituição no intercâmbio;

3- A professora Márcia Padilha, em Ele passou do meu limite, relata um caso de assédio que viveu na universidade.

M.
Sabe fazer uns barulhos no violão e as boas línguas dizem que sua pizza é sensacional. É apaixonada por fotografia artística, apesar de nunca ter feito uma. Sempre dança sozinha para aliviar o estresse. Dizem por aí que também é matemática.

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