Precisamos falar sobre estupro, gênero e machismo

Para que não sejamos todos e todas cúmplices de um crime continuado, precisamos falar sobre estupro, gênero e machismo

O episódio de estupro coletivo envolvendo uma jovem de 16 anos e cerca de trinta e três homens de idades diversas, ocorrido neste mês no Rio de Janeiro ¹, redirecionou, mais uma vez, os holofotes da sociedade para um tipo de violência que, embora bárbara, hedionda e, infelizmente, frequente, não compõe o repertório de conversas cotidianas em nossos círculos sociais e familiares. Este silêncio não se explica, necessariamente, por se tratar de um assunto tabu, proibido ou indigesto, mas por revelar, de forma nua e crua, elementos estruturantes das relações entre homens e mulheres que fundam nossa sociedade machista, sexista, patriarcal e patrimonialista, naturalizando o inevitável ato.

Embora descrito no ordenamento jurídico como crime sexual, bem como caracterizado desta forma no imaginário social, sempre associado ao incontrolável desejo que faz com que homens ajam em arroubos instintivos, animalescamente, o estupro transcende o campo da sexualidade e se inscreve, sem grandes esforços intelectuais ou teóricos, no campo das relações de poder entre o que se entende por masculino e feminino. Desta forma, os gêneros apresentam, tanto na vida privada quanto na esfera pública, uma distribuição desproporcional de poder cabendo aos homens, no geral, o maior quinhão em razão de uma suposta superioridade atribuída ao masculino que não apenas hierarquiza as relações, mas, sobretudo, subalternaliza e desqualifica o feminino, não raramente, colocando‐o no lugar de objeto a ser fruído, quando não, compartilhado.

Se não, vejamos. Mesmo diante da brutalidade do caso não faltaram insinuações grotescas com relação ao comportamento da adolescente, mãe solteira, de periferia, afeita a baladas, drogas e bebidas, como se a sua indumentária, hábitos e costumes pessoais, bem como locais de predileção para diversão justificassem, por si só, a violência sofrida. Mais uma vez, transformam mulheres vítimas em culpadas pela violência sofrida, com a utilização de mecanismos pelos quais homens ousam desculpar seus iguais sob o absurdo argumento de que o seu instinto sexual possui o condão de lhe privar os sentidos e a razão, transformando‐o em troglodita e a vítima, em objeto que ousou não ser recatada e nem do lar e teria recebido a pena por sua transgressão.

Não diferente e, muito menos, coincidentemente, passaram a circular mensagens apócrifas nas redes sociais insistindo na tese de que não foi estupro, mas sexo consensual, ainda que associadas às imagens da garota desacordada, ferida e ensangüentada. Por sua vez, a polícia carioca, bem como a imprensa, com um cuidado insuspeito, insistem em falar em um suposto caso de estupro, diante da ausência de elementos cabais que comprovariam a versão da menina que disse ter sido violentada. Sublinhe‐se, versão da vítima, o que denota não ser prova suficiente, razoável ou confiável para caracterizar o fato delituoso.

Escancara‐se, sem pudor, a verdadeira face da cultura do estupro institucionalizada no país. Mulheres sem voz, sujeitadas ao poder do outro, simbólico a partir das piadas sem graça, gracejos que se pretendem elogios de conotação sexual, pedidos de socorro não atendidos e denúncias desacreditadas, ou bem concreto, como é o caso da violência sexual, no qual não apenas o corpo é violentado, mas a alma quebrada em pedaços, durante o ato em si e em seus desdobramentos, que acabam por fazer com que se acredite que, de fato, quem deu causa ao crime foi a própria vítima.

Porém, ao contrário do que necessitamos para romper com a naturalizada cultura da violência e estupro em nosso país, várias casas legislativas, inclusive a Câmara Municipal de Belo Horizonte, colocam em tramitação um Projeto de Lei que proíbe as escolas de discutir gênero, igualdade entre homens e mulheres e política, o que, no limite, é discutir a forma assimétrica de distribuição de poder em uma sociedade, poder entre classes, etnias, gêneros e gerações.

Para que não sejamos todos e todas cúmplices de um crime continuado, precisamos falar sobre estupro, gênero e machismo, em casa , na escola no trabalho, em todos os lugares, sempre e sem parar, até que possamos reconhecer que alguma coisa está errada e fora de ordem, para daí empreender processos de transformação rumo uma sociedade mais justa e igualitária.

A mulher no SQS

1- No texto A primavera não chegou ao bloco cirúrgico, de Ana Cecília Borges, a médica relata as dificuldades encontradas pelas mulheres que buscam ser cirurgiãs;

2- O SQS também falou sobre o Projeto #MAODUPLA, dos publicitários Emília Guimarães e Guilherme Toledo, que discute a representação feminina no cotidiano;

3- No texto Tutorial 8 de março, a jornalista Cecília Emiliana aborda a participação e postura masculina frente ao feminismo e no Dia Mundial das Mulheres;

4- Em O silêncio dos machistas, o professor Rodrigo Ribeiro discute a presença do feminismo e igualdade de gênero no Enem 2015;

5- A professora Márcia Padilha, em Ele passou do meu limite, relata um caso de assédio que viveu na universidade.

Referências

 [1]Compartilhar estupro coletivo nas redes, a nova versão da barbárie brasileira – El País

 

Roberto DominguesRoberto Domingues

Militante pelos Direitos Humanos, possui graduação em Direito, com especialização em Direito Público e graduação em Psicologia. Mestrando em Filosofia do Direito. Servidor Público na área de saúde da Prefeitura de Belo Horizonte. Possui experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Clínica-ambulatorial em atendimento de pessoas que vivem com HIV e AIDS, estando lotado na Coordenadoria de Direitos Humanos (CMDH), desde 2009, na qual desempenha, desde outubro de 2013, o cargo de Gerente de Articulação da Política Pública LGBT do município de Belo Horizonte. Ocupa, na gestão do XIV Plenário do Conselho de Psicologia de Minas Gerais, a função de presidente desta autarquia, a partir de 21 de setembro de 2013.

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2 comentários em “Precisamos falar sobre estupro, gênero e machismo

  • 29 de maio de 2016 a 14:50
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    Excelente texto! É urgente que a discussão sobre gênero e machismo seja feita de forma aberta. A começar pelas escolas. Penas mais duras para crimes hediondos e a não-culpabilização das vítimas de estupro! O tempo urge enquanto as mulheres são abatidas mundo afora…

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  • Pingback: Professores machistas: outra face das salas de aula - SQS!

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