A incrível lógica das crianças empinadoras de pipa

Lá no limpo céu das tardes de julho apontava um papagaio, que é diferente de pipa segundo o dicionário oficial das férias de julho.

— Tá de coieta, Zé!

Então é pra correr! E corríamos! A estratégia era correr e se manter debaixo do papagaio. Passávamos pelos carros, pelo sacolão, padaria, casa de ração — com pausa para enfiar a mão na lata de alpiste — a driblar pessoas e a saltar entre as calçadas. Seguíamos completamente alheios ao mundo cá embaixo, mas de olhos bem postos no papagaio que balançava a esmo lá em cima. Ninguém foi atropelado ou tragédia parecida. Não que eu tenha notícias. Existe um Deus protetor das crianças empinadoras de papagaio que permite no máximo uns joelhos ralados.

Olha, devo confessar que nunca consegui pegar um papagaio de coieta. Uma vez cheguei a tocar na rabiola, mas um menino mais velho surgiu e a levou para longe do alcance dos meus dedos. Se eu já pensei sobre isso? Não. Pensar em quantas vezes você falhou, avaliar chances, pensar em probabilidades é coisa de adulto. Cada novo papagaio se traduzia em uma nova chance de alcançá-lo. No fundo, o importante mesmo era correr, era tentar. Tá de coieta? Então corre! Esse era o lema, essa era a lei.

Contudo, devo alertar para o fato de que se o papagaio tá só dando linha, então não corra! Só mané confunde papagaio de coieta com papagaio dando linha. Dar linha consiste em deixar o vento se encarregar de levar o papagaio e desenrolar a linha. Lá no alto realmente parece que não há nada segurando o papagaio. Se já confundi as duas coisas? Claro, quem nunca? Certa vez desci o morro da minha casa aos passos largos, trupicando nas minhas próprias pernas e com os chinelos se arrebentando. Fui parar lá no bairro Lindéia, onde reparei que o papagaio mais subia que caía. Certamente foi das primeiras frustrações da minha vida. E das mais rápidas também. Na metade do caminho de volta eu já não me ocupava do assunto.

Eis outro traço da minha infância: nunca fui bom em fazer papagaios. Enquanto meus amigos faziam papagaios com papel de seda, eu me enrolava com papagaios de saco furado… Sim, eu era um cubuzêro — pessoa que faz papagaios cubús. Também não tinha lá muita paciência para a rabiola, por isso me aventurava nos surecos (papagaios sem rabiola). Fazer um sureco ser flechinha é uma arte, que eu também não dominava. Sabe o que acontece com um papagaio sureco e cubuzão? Ele roda, meu amigo. Fica rodando sem parar. Um verdadeiro caos aerodinâmico.

Outro talento que eu não tinha era o de tosar. Perdi todos os meus papagaios. Nunca tosei ninguém, muito menos tosar e aparar. Isso sim exigia uma experiência papagaiodolística absurda! Tosar o papagaio inimigo e ainda capturá-lo no ar? Não era pra mim. Nunca foi.

Nesse mar de falta de talentos, muitas vezes me contentei em empinar papagaio dos outros. “Deixa eu dar um toquinho aí, Zé!” E nesse mesmo mar, sendo talvez a criança mais sem talentos de Contagem, fui também a mais feliz. Não tenho recordações de me importar com os meus cubús e os meus surecos. Muito menos com todas as vezes que corri sem ser recompensado. Naquela época, o importante era a corrida, a aventura que muitas vezes ia acabar lá no outro bairro. A diversão morava no processo de sentar-me no chão junto dos meus amigos, cortar a sacola, afiar as varetas. Se o papagaio ficasse uma bosta, a gente quebrava tudo e fazia outro. Não sem antes rir! “Que merda de papagaio, Zé!” “Esquenta não, Zim, vô fazê outro e vai ficar daora!” Nunca ficava, mas também nunca me importei. Tínhamos todo o tempo do mundo e éramos as mais sábias pessoas que já correram por aquelas ruas.

Referências legais e curiosidades

1- Este post foi inspirado pela infância do autor e pelo filme gravado no município de Contagem: A vizinhança do Tigre. Você pode conferir o trailer logo abaixo;

1.5 – O filme está em exibição no Humberto Mauro;

2- A fotografia foi tirada pelo autor no Parque Ecológico da Pampulha. Parque público, de entrada gratuita localizado na Pampulha.

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

5 comentários em “A incrível lógica das crianças empinadoras de pipa

  • 19 de maio de 2016 a 12:29
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    Minha infância. Muito obrigado pelo acesso à minha memória.

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    • Rodrigo Ribeiro
      20 de maio de 2016 a 19:31
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      Que bom! Fico feliz! Obrigado pela visita!

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  • 19 de maio de 2016 a 18:03
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    Quando criança ganhei um papagaio de seda do Brasil, menos de 5 minutos no ar e me tousaram. Foi uma frustração. Desde então, quando ganhava um papagaio, assim, bonito, eu deixava ele bem baixinho. Aí ficava de tocaia com um primo com um Bambu enorme esperando alguém vim tosar nosso papagaio. Agente arrebentava a linha dos caras com o bambu, não havia cerol que aguentava.

    Boas lembranças!!

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    • Rodrigo Ribeiro
      20 de maio de 2016 a 19:32
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      Moacir, meu chapa! Ri muito aqui do seu comentário! Bela técnica!! Devia ter lido isso anos atrás!

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