Sinal dentro de um ônibus

Ontem, secretamente, ajudei alguém. O ato, que agora torno público, passou-se num ônibus da linha 5102. Um distraído passageiro, dos gestos lentos e sem vida, puxou a tradicional cordinha de varal e dirigiu-se à porta de saída. Contudo, talvez por estar envolto numa nuvem cinza, o homem não notou que a luizinha do sinal se recusara a se acender. Silenciosamente, levantei a mão direita e puxei o varal com mais convicção. A luizinha se acendeu e o homem desceu — carregado por três passos tímidos. “Funcionou”, eu pensei, sem perceber que a cordinha tinha se arrebentado…

Fuzilado pelos mortais olhares de reprovação lançados pelos demais passageiros, que certamente pensavam “olha lá o destruidor de ônibus”, desci três paradas antes da usual. No caminho pensei comigo: “será mesmo que o sujeito queria descer?” A julgar pelo ato de dar sinal e se dirigir a uma das saídas, claro. Porém, talvez pensasse: “se o ônibus não parar, eu continuo. Se parar, eu caio.” O que me lembrou as tantas decisões da minha vida que foram tomadas sob a mesma lógica: “Se foi, foi. Se não foi, não foi.” Por outro lado, levando em conta o guarda-chuva preto em dia de sol e a expressão melancólica que o sujeito carregava, posso dizer apenas que o homem deu um sinal. E só. Em algum lugar do mundo, numa quinta-feira, um homem deu um sinal. E isso é tudo que se pode dizer e essa é a única verdade.

Referências

1- Crédito de foto: Johnny Silvercloud via VisualHunt / CC BY-SA.

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

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