Despedida

Caros amigos,

Tristemente venho comunicar a todos que estou entregando os pontos. Estou desistindo. É claro que, como disse James Malinchak, na crônica de mesmo nome, “desistir não é perder”; mas ainda assim cabe ressaltar que não é sem pesar que tomo esta decisão. Sinto muito se eu os tiver decepcionado; saibam que ninguém sofrerá mais com os infortúnios da decepção do que eu própria. É justo admitir que alguns de vocês não sabem e não acompanharam de perto a minha luta. Outros, contudo, estiveram comigo e sabem o quão perseverante eu fui durante todo este tempo. A estes eu agradeço, e aos primeiros revelo que há cerca de três longos anos venho lutando com todas as minhas forças para não me deixar abater; venho resistindo, enfrentando, mas de um tempo para cá comecei a perceber que meus esforços já deixaram há muito de ser eficientes. Faltava-me apenas boa fé para reconhecer e aceitar isto. Olho para frente, cabeça erguida, assumo em sua totalidade as consequências deste ato. Estou plenamente ciente de que a partir de agora estarei correndo contra o relógio, e sinto-me no dever de deixar isto claro também para vocês. Aos que desejarem se despedir de mim, serei completamente receptiva durante todo o mês de maio, e muito me alegrará a presença de vocês neste momento de transição. Na realidade o prazo de que disponho está estimado em cerca de 25 dias e, creio, após isto, o pôr do sol de cada dia será algo incerto para mim; não é possível prever quanto tempo demorará até o meu instante final. Mas, quando ele chegar, peço de coração que não se esqueçam de quem eu fui. Àqueles para quem a minha amizade foi valiosa, lembrem-se dela, prezem por ela. Em algum lugar remoto do cosmos estarei feliz em saber que fazem isto. E àqueles que sub-repticiamente me trouxeram até este ponto, informo – finalmente, vocês venceram. Eu me rendi. Enfim, comprei um smartphone. Muito em breve abandonarei este corpo e ele se tornará mais um zumbi de ânimo sutil e opaco, vagueando pelos rincões inóspitos habitados pela multidão. Mais uma alma cativa do grande tornado de silício que varre o mundo. Mais uma sombra do nosso século.

Veronica Campos

Mendigo na empresa Mendigo.

Em um relacionamento sério com Filosofia, mantendo relações extra-conjugais com Artes Visuais e Literatura.

Autor Convidado

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Um comentário em “Despedida

  • 2 de maio de 2016 a 21:14
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    Excelente texto!

    Habitualmente somos compelidos a comprar/obter novas tecnologias, com a justificativa que precisamos nos adaptar ao novo. Somos seduzidos por sua praticidade, mas não percebemos de que forma ela pode empobrecer as relações intersubjetivas. Muito boa a forma como texto dramatiza este dilema da contemporaneidade, que acaba sendo obscurecidos pela idéia de praticidade.

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