Quando se aplaude um assassinato

Como reagimos ao ouvir sobre um assassinato? E uma criança? Apresentamos um relato sobre um homicídio ocorrido décadas atrás, no interior de Minas Gerais.

Eu era pequena, me lembro até hoje, foi uma coisa muito chocante, que isso nunca me saiu do pensamento. Teve um soldado chamado… parece que era André, matou um pretinho no Baixão. E ele foi preso. E lá na cadeia ele ficou doente, aí ficou com os pés muito inchados. E acho que eles até facilitaram a fuga pra ele. E antes de acontecer o que aconteceu eu fui lá na cadeia levar café porque todo ano a mamãe fazia café com quitandas, bolos, doces e mandava levar na cadeia. E eu, como sempre, estava disponível, era uma das que ia levar essas coisas na cadeia. E ele ainda brincou comigo, agradeceu muito. E aconteceu que ele fugiu da cadeia. Mas todo mundo acredita que eles… isto é, foi falado na ocasião que eles facilitaram pra ele a fuga. Era um preto alto, forte. Mas como ele estava muito doente, não podia andar direito, logo aqui, perto onde o Chico tem aquele armazém da Catuaí lá encima, não sei como é que se chama aquele bairro — Cidade Nova, parece — então ali tinha um matagalzinho, tinha umas lobeiras, ele não pôde andar mais do que da cadeia lá nesse lugar e sentou debaixo da árvore. E os bate-pau saíram para capturá-lo. E lá o mataram. Covardemente. Isso foi uma coisa chocante. E não vou citar nome de pessoas porque ainda tem filha por aí que pode achar chocante.

E nesse dia aconteceu que desceu aqui em Campos Gerais um avião — desses aviões pequenos, não sei, não entendo negócio de avião. Esse bimotor, que chama? Esse aviãozinho pequetitinho que parece de papel? Sei lá, negócio de avião não entendo nada. Sei que era um avião pequeno. Desceu no campo lá do compadre Bodoque, lá encima. E lá o povo saiu correndo, saiu gente da cidade inteira, porque foi um acontecimento na cidade. Nunca ninguém tinha visto um avião. E esse avião era do exército do Getúlio Vargas. Abaixou aí, todo mundo ficou alarmado, pensando o que é que iria acontecer, aquela coisa toda de revolução. E saiu gente de toda parte da cidade pra ir lá. E quando estava o povo todo reunido, os bate-pau chegaram contando que tinha matado o soldado. Aí muitos políticos que estavam lá, pessoas que até eram consideradas os bambas da cidade, bateram palma. Aquilo pra mim foi uma cena muito chocante. Achei aquilo muito selvagem demais, bater palma por ter matado um coitado dum homem inútil — inutilizado, quer dizer — pela doença e à traição. Mataram o homem sentado debaixo da árvore. Aquilo pra mim foi muito chocante. E eu não esqueço dessa cena até hoje, quando eles chegaram e falaram assim: “Matamos o Fulano!”. Todos… alguns… eu, não, e muitas outras pessoas não, mas a maioria bateu palma, inclusive pessoas da mais alta cúpula política da cidade bateu palma. Eu achei aquilo um ato deprimente demais. Até hoje eu penso nisso.

Elza Pereira

Elza Pereira sorri em sua primeira foto, com os olhos vivos e redondos bem abertos, ainda bebê, mal acabara a Primeira Guerra Mundial -– que de Campos Gerais (MG) parecia tão longe. Banhou, vestiu e alimentou os irmãos menores numa família de treze. Normalista, participou de peças de teatro, festas da igreja, bailes, carnavais, quermesses para construir o asilo e o hospital da cidade. Foi professora primária por poucos anos. Trabalhou como secretária, ensinou datilografia, vendeu fermento, teve sua loja de armarinhos. Aposentada, conduziu à aposentadoria dezenas de pessoas que desconheciam esse direito – sem nada cobrar por isso. Gostava de novidades, era vaidosa, fazia questão de fartura, não perdia o jornal e uma boa novela (primeiro no rádio, depois na TV), adorava hortênsias e filmes de faroeste, roía as unhas pelo Brasil nos jogos da Copa, fazia um delicioso tutu à mineira, tinha medo de tempestades, inventava apelidos e palavras. Em 1998 comemorou os 80 anos com uma grande festa, repleta de gente. Na breve gravação de suas últimas imagens em movimento, em 2007, canta duas marchinhas de carnaval. Era bem humorada, um tanto tímida, reservada. Não quis incomodar ninguém. Amou até o fim.

Crédito de foto

1. A foto deste texto é de autoria de AdrianoSetimo via Visual hunt / CC BY-NC-SA.

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