Como me prostituí no intercâmbio

Um relato de um jovem gay sobre solidão, sexo e prostituição.

Eu nunca tive um namorado. Já carrego 26 anos nas costas, idade em que meus pais casaram algumas décadas atrás, e até hoje nada. Esta comparação com eles e com algumas pessoas conhecidas, de mesma idade e que estão casando e tendo filhos, me deixa um pouco inquieto.

Talvez o fato de eu ser gay tenha contribuído para eu não ter tido relacionamentos. Sexo, para mim, é sempre fácil de arrumar. Se alguém me perguntasse com quantos homens eu já transei, eu não saberia responder. Talvez, com algum esforço, depois de uma regressão memorial que poderia demorar alguns minutos, eu teria uma estimativa grosseira. Sexo casual é tão simples e prático, em contraste com namoro, que é dispendioso. No namoro, as partes constroem e colocam tempo e esforço na relação, enquanto que no sexo casual cada um tira o quanto puder, e o único preço a se pagar é a solidão.

Recentemente, me encontrei com um imigrante argentino que mora há 17 anos em NY e que não fala inglês. Eu também não falo espanhol, mas de qualquer forma, não é preciso muita conversa quando se está disposto apenas a sexo. Fomos pro quarto, transamos, e poucos minutos depois, eu já estava no trem de volta à minha casa e sem a intenção de vê-lo novamente. Também, naquele momento, eu não estava certo se eu cheguei a saber seu nome ou se eu já havia me esquecido qual era. Ele é mais velho, talvez tenha 40 e poucos anos, e faz um sexo morno. Não é o que eu procuro como marido, porém me serviu como distração.

Uma semana depois ele me contactou querendo um reencontro. Eu, desanimado com a lembrança do primeiro encontro e com zero vontade de sair de casa no frio nova iorquino de dezembro, inventei uma desculpa e disse que não haviam trens naquele final de semana. Ao perceber meu desânimo, ele sugeriu que eu pegasse um táxi até a casa dele, e que ele pagaria pela corrida. Eu disse que ficaria caro, chutei 50 dólares para ida e volta, e ele disse que não tinha problema. Peguei o trem e fui para a casa dele, querendo embolsar os 50$ por 30 minutos de diversão. Que mal tem?

Chegando lá, as coisas não foram tão diretas. Ele começou a falar da vida dele, da jornada, da saudade que ele tinha da Argentina, e eu fui ficando entediado e impaciente, tanto porque a comunicação era difícil por conta das línguas, quanto porque eu queria meu pagamento rápido, voltar para casa e dormir. Por ter me sentido um objeto naquela hora, fiz um esforço para disfarçar minha impaciência e tentei ser simpático.

Depois da baboseira, terminamos o serviço, coletei o dinheiro do táxi e voltei para casa de trem. Isso se repetiu por alguns finais de semana, mas já não sei até que ponto ele ainda acredita estar pagando pelo táxi. Às vezes um sentimento de culpa começa a tomar forma no fundo de minha cabeça: ele trabalha 10 horas por dia como repositor de supermercado e, portanto, não ganha muito. Mas o que eu posso fazer?

A culpa passa rápido. Afinal, 50 dólares são 50 dólares.

Informações complementares

1. N.B. é autor convidado do blog SQS e escreve para o blog Solto em BH.

2. Todo mundo tem uma história para contar. Se você tem vontade de compartilhar seu relato com os leitores do blog SQS, entre em contato conosco.

3. Crédito para a imagem em destaque: Hello Turkey Toe via Visualhunt.com / CC BY.

 

N.B.
Sou mestrando em Energia, sem muitos talentos, procurando um marido rico que morra cedo. Principais hobbies incluem ficar hidratado e administrar minha ansiedade paralisante. Eu nasci no interior de MG e morei em BH até 2014, onde vivi como um gay de armário. Atualmente morando em Nova York, pretendo voltar para minha linda Minas no ano que vem.

 

Autor Convidado

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2 comentários em “Como me prostituí no intercâmbio

  • 2 de abril de 2016 a 22:31
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    Depois de ler esse texto, desenvolvido com habilidade e exatidão de palavras, a gente fica pensando um tempão sobre prazer, amor, sexo, dinheiro e na relação entre esses pontos.

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  • 8 de maio de 2016 a 18:42
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    interessante historia, nao sei se é ficcional, mas pode bem ser verdade, e, afinal de contas, de umjeito ou de outro, todo mundo paga e recebe não é mesmo?

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