Qual a utilidade do que se aprende na universidade?

Qual a utilidade do ensino superior? Por que cursamos tantas disciplinas que aparentemente não nos servem durante a vida profissional?

Resposta curta: sei lá, amigão. Que que cê chama de útil?

Resposta longa e educada: Depende do que se classifica como útil. Explico. Lembre-se, esta é a resposta longa e educada!

Só é útil aquilo que eu puder aplicar na minha vida profissional

Mesmo sem dados e torcendo para estar enganado, talvez essa seja a concepção mais comum entre os estudantes. E a mais superficial também.

Honestamente, amigo, nunca vi um engenheiro usando integração por partes para erguer um prédio. Para falar a verdade, estaríamos morando em cabanas se dependêssemos disso. Nunca vi biólogo calculando na mão a taxa de crescimento de uma população de bactérias. E o engenheiro eletricista, que uma vez foi à minha casa, não usou números complexos, regra da mão direita ou coisa parecida. Existe o computador e, talvez mais importante, existem normas, técnicas e padrões que, se seguidos corretamente, garantem um mundo “longe” do caos.

Por que a universidade não ensina todas essas técnicas e pronto?

Porque a universidade tem consciência do valor, financeiro e social, do conhecimento. Por exemplo, no ano passado, o Facebook foi avaliado em US$ 200 bilhões[1]. Esse valor ultrapassa o valor da empresa automobilística, Toyota. Se pensarmos em bens físicos, o que o Facebook produz? Alguém aí já viu carro do Facebook? Fábrica do Facebook? Sequer vendem um par de meias.

O Facebook é um ótimo exemplo de como algoritmos e ideias tornaram-se valiosos financeiramente. E é essa uma das razões de não se formar replicadores de técnicas. É extremamente importante para o país formar profissionais inventivos. Produzir conhecimento ou não, pode significar exportar toneladas de soja ou exportar meia dúzia de supercomputadores.

Um profissional educado apenas nos moldes das técnicas atuais vira um reprodutor de regras que, muitas vezes, ele desconhece sua razão de ser. Além de ter pouquíssimas chances de desenvolver novas teorias, novos materiais e modos mais eficientes de produção.

Num mundo refém das patentes e dos copyrights, é suicídio não investir em produção de conhecimento. E o desenvolvimento científico passa pelas mãos de profissionais capazes de questionar os modelos atuais, desconstruir paradigmas e desenvolver novas técnicas. Para esse trabalho criativo não há computador e paradigmas não são quebrados na base da marreta.

E também, não podemos nos esquecer que, antes de serem profissionais, os estudantes formados pela universidade serão cidadãos. E o conhecimento combinado à capacidade de compreendê-lo é a luz contra o preconceito e a ignorância; e o caminho para uma sociedade mais justa e mais atenta aos próprios problemas.

Só é útil aquilo que vou usar em outras disciplinas

O problema de se pensar assim é fechar os olhos para uma aplicação mais sutil. O fato do conteúdo de uma disciplina não ter sido empregado diretamente em outras áreas e matérias não implica ausência de aplicação ou utilidade. Às vezes, a utilidade de um disciplina não mora no conteúdo em si, mas sim nos questionamentos que ela é capaz de levantar ou nos raciocínios e ideias que ela traz.

Mas eu tenho o direito de decidir qual importância dou para o conhecimento!

Claro! A universidade também.

Referências
[1] Valor de mercado do Facebook ultrapassa os US$ 200 bilhões.

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

Um comentário em “Qual a utilidade do que se aprende na universidade?

  • 14 de junho de 2016 a 13:52
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    Na minha opinião, nós demoramos muito para amadurecer e compreender que muitas das coisas que aprendemos na universidade só serão úteis futuramente, que é importante sabermos calcular muitas coisas “na mão” sim, pois é importante saber de onde aquele equipamento emitiu tal resultado, entender a lógica das coisas. Muitas disciplinas serão usadas por um profissional em especial e não por outro, mas sempre vale a pena saber da existência daquele conteúdo. Isso é conhecimento. Isso amplia nossos horizontes e o entendimento do mundo. Eu já sou formada a 14 anos e só agora tenho uma melhor compreensão destas questões.

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