As pernas curtas do ensino e o que você tem a ver com isso

O ensino não vai bem, e temos a responsabilidade de questionar: Quem são os responsáveis? Será que a culpa é do aluno que não estuda, ou do professor que não ensina direito? Há algo que pode ser feito para melhorar nosso cenário atual?

Infelizmente, não é novidade que o ensino atual caminha com pernas curtas. Os alunos estão desinteressados, professores desanimados, o salário não ajuda, a tecnologia não consegue ganhar espaço… e foi refletindo em cima disso que cheguei a uma linha de raciocínio. Por ‘linha’ quero dizer que não tenho a pretensão de abraçar o problema como um todo, e nem responder, por agora, meus próprios questionamentos, mas sim refletir com vocês sobre a abordagem que apresento.

Todos nós precisamos trabalhar. E aqui falo de necessidade. Precisamos comer, precisamos nos vestir, uma maioria precisa gerir uma família, precisamos de lazer. E trabalhar é a via que nos fornece dinheiro para fazer essas coisas. Coloque-se agora no lugar de um professor do ensino fundamental ou médio. Ele passa o dia todo na escola, chega em casa à noite, (alguns) prepara as aulas do dia seguinte, corrige trabalhos, provas, elabora exercícios, lança notas. Então me pergunto: como exigir um ensino de qualidade se nossos professores de base não têm tempo para investir neles mesmos? Não é esperado, portanto, que eles façam uma pós ou especialização. Não se espera que eles façam cursos para tornar as aulas mais atuais, mais dinâmicas. Não se espera que a tecnologia possa ser empregada de forma eficiente na sala de aula. Como resultado, o ensino não caminha.

(…) informação e reflexão são fortes aliados contra a ignorância, os preconceitos e o nosso jeitinho brasileiro.

Daí, tristemente, vemos ganhar forma uma reação em cadeia, que aliada a outros aspectos que não explorei, faz surgir alunos desmotivados, o alto número de reprovações, os diversos assuntos que deveriam estar na ementa mas não são abordados, a necessidade/dependência de fazer aulas particulares. E esta última, que deveria funcionar como um complemento, um acompanhamento, surge como o bote salva vidas, ou pior, tira das escolas a responsabilidade de oferecer ensino de qualidade. E quando esses alunos conseguem ser aprovados, eles chegam às universidades, assim como eu cheguei, com a mentalidade de que lá ainda é o ensino médio, e com fórmulas mil na cabeça. Daí aparecem as colas (sim, elas de novo…), as reprovações, a dificuldade de vencer etapas, de aprender a estudar, a imaturidade para começar a pensar por si próprio. E são esses alunos que saem de lá para alcançar o mercado de trabalho e prestam serviços para nós, a comunidade.

E como podemos impedir que a próxima peça do dominó caia, como interromper esse processo? Ainda não tenho uma resposta consolidada, mas como disse no início, podemos pensar juntos. O que posso, por agora, é passar minha experiência para os estudantes que ainda estão viajando na maionese, algo que aprendi por conta própria e com algum esforço. Estudar tem a ver com dedicação e questionamento. Algo só se torna natural quando olhamos para esse algo muitas vezes e pensamos em cima dele. Então sim, se você quer aprender uma coisa, você terá que dedicar algumas horas do seu dia pensando sobre ela. Pode soar como um conselho repetitivo e individual, mas perceba que assim você estará fazendo seu papel para tornar nosso mundinho melhor, pois informação e reflexão são fortes aliados contra a ignorância, os preconceitos e o nosso jeitinho brasileiro. Sempre se lembre de que, apesar de o ensino andar mal das pernas não ser sua culpa exclusiva, você faz parte do mecanismo, se beneficiando ou indo para o buraco com ele.

Informação complementar

1. Crédito de imagem do post: torresk via VisualHunt.com / CC BY-NC.

2. Quer ler mais sobre ensino e educação? Tem um bocado de textos legais na aba “No intervalo”, e fica implícito aí meu convite para pensarmos juntos.

Pedro Daldegan

Pedro Daldegan

Mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é aluno de doutorado na mesma instituição, com ênfase em álgebra. Quando não está no cinema ou matematicando, é leitor, cozinheiro e poeta. Há boatos de que também desenha, mas só temos conhecimento dos seus deformados bonecos de palitinho.

3 comentários em “As pernas curtas do ensino e o que você tem a ver com isso

  • 4 de março de 2016 a 21:06
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    Otimo post!nos faz refletir um pouco sobre a qualidade do ensino e dos alunos. Estou em minha segunda graduacao e exatamente por esse motivo entrei mais madura e consegui me livrar um pouco do pensamento do ensino medio, que induz o aluno apenas estudar na hra da prova, decorar formas e nao questionar o aprendizado. Vejo que tambem fui pega por esse pensamento em meu primeiro curso, eh dificil amadurecer a ideia que o ensino esta alem do que o professor passa em sala e que devemos aprofundar, buscar e questionar mais. Agradeco pela oportunidade de fazer meu segundo curso superior e entrar com outra cabeca, outro pensamento, mais critico, que entretanto so aconteceu depois de um periodo de amadurecimento. Acho que falta uma reformulacao do ensino, como um todo, percebo os alunos com dificuldade de abandonar o ensino medio, sempre questionam qndo professor cobra alem do que ele passou em sala e isso n deveria ocorrer, deveriamos entrar na graduacao ja com pensamento alem da sala de aula, buscando nos msm a informacao. Porem, qndo algumas faculdades tentam fazer isso, aplicando o metodo pbl sao questionadas ou geram preconceito por parte de alguns pais e alunos, que nao abandonam o metodo tradicional. Acho q seria importante que as escolas buscassem isso desde o ensino basico , ensinar o aluno a correr atras e nao se acomodar apenas com a sala de aula, falta um estimulo a esse tipo de aprendizado.

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    • Pedro Daldegan
      12 de março de 2016 a 17:35
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      Oi Marina! Fico feliz que o meu texto tenha provocado sua reflexão, e obrigado pelo comentário. Suas observações me fizeram pensar no problema sob um olhar que extrapola a escola, além de trazerem a mim algumas recordações. Quando pequeno lembro-me de minha mãe chegar do trabalho e dedicar parte da noite a tirar minhas dúvidas com o dever de casa. Quando ela estava cansada às vezes tínhamos que, os dois, acordar de madrugada para que eu terminasse a lição. E raramente ela me dava respostas prontas. Quando eu tive dificuldade em matemática, por exemplo, ela criou um sistema de cartas: num lado tinha uma operação e no outro a resposta. Dessa forma, quando ela não estava comigo, eu poderia treinar os fatos sozinho. Houve momentos também em que eu fazia perguntas que ela não sabia responder, daí ela comprou vários livros para eu consultar. Curioso foi eu ter lido biografias de diversos escritores, poetas, cientistas, políticos, cujos feitos eu só entenderia mais tarde. Mas por que estou escrevendo isso? Agora ocorreu-me que minha mãe não dedicava seu tempo sanando minhas dúvidas, mas sim orientando-me para que eu mesmo o fizesse. Conforme dissemos, estudar tem a ver com questionamento, e só quando questionamos há possibilidade de obtermos algum prazer com a resposta. O problema é que nosso sistema atual (que já sopra centenas de velinhas…) não valoriza o esforço do aluno ao pensar, mas sim sua capacidade de executar tarefas e decorar procedimentos. E parte disso, percebo, tem a ver com tempo. Afinal, há tempo para perguntar e não há tempo para responder. E, consequentemente, não há tempo para raciocinar, construir e quebrar nossas dificuldades, pois temos que executar e automatizar. Uma bela indústria, não?

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  • 14 de março de 2016 a 23:43
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    E isso ai Mães não tem que responder; e sim jogar as perguntas para que os filhos questionem….Parabens
    Pedro Henrique!!!!!!

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