Tá muito difícil, professor!

É isso, falar e ouvir. Você entrou na universidade pra aprender a dizer coisas sobre algumas coisas ou sobre pessoas.

Ninguém falou que ia ser fácil. A gente até pode – e acho que deve – aprender brincando. Mas vem cá: não dá pra brincar de massinha na universidade, né? Nela, a gente aprende, basicamente, a falar sobre alguma coisa. Há quem chame isso de “erudição”, mas vamos deixar essa palavra quieta porque ela pode ser usada pra rotular gente chata (injustamente, em alguns casos). Mas é isso, parceiro(a): na universidade você vai aprender a falar sobre alguma coisa. O estudante de medicina aprende a falar de doença (ou de saúde). O de matemática, de números (sei que é mais que isso, amigos matemáticos, mas aqui tô simplificando mesmo). O de geografia, de espaço e de gente ocupando este planetinha que talvez acabe logo. E por aí vai.

Viu? Não é mais que isso: você entrou na universidade pra aprender a dizer coisas sobre algumas coisas ou sobre pessoas. Os gregos chamavam isso de – só pra eu bancar o erudito! – λέγειν (legein), que quer dizer “falar” – e que deu no português o sufixo “-logia” (que está em palavras como “biologia”, “farmacologia”, “sociologia”, “psicologia”, “antropologia”, “cardiologia”, “fonoaudiologia”). Entende? Agora, como é que a gente aprende a falar sobre alguma coisa? Tem várias maneiras. A da universidade é estudando. Sorry, amigo(a), mas os japoneses estão muito atrasados na invenção do chip orgânico pra implantar no cérebro e dispensar a gente do esforço de estudar. Por enquanto, não tem atalho pro tal do conhecimento, que é exigente, difícil, penoso e solitário (por mais que se possa contar com a ajuda do professor e dos colegas). Você racha o cabeção de tanto ler e reler e descobre que não entendeu porra nenhuma. É assim que funciona mesmo. Porque quando você se dá conta de sua ignorância – bingo! – você começa a aprender.

Sabe como é que você identifica o sujeito burro? De várias maneiras. Mas uma delas é que ele acha que não tem nada a aprender. E, pior, só tem a ensinar. Burro não sabe dialogar – e olha só: na palavra “diálogo” tem uma variante daquele sufixo grego “-logia”. Quer dizer, burro não entende e nem quer saber do legein, isto é, do falar para o outro e do ouvir o outro – que é isto que quer dizer a palavra “diálogo”. Ouvir o outro prestando atenção no outro. Taí outro sintoma de burrice: desatenção. Sabe como você reconhece um sujeito inteligente? De várias maneiras. Mas uma delas é ver se ele é atento. Porque a atenção é a capacidade de você se colocar no lugar do outro – seja esse “outro” uma outra pessoa, um artigo científico, uma escultura, uma paisagem, uma peça de teatro, uma canção, um experimento no laboratório. Então não me espanto quando o(a) aluno(a) me pede menos aula, menos leitura, menos tempo na e para a universidade. Ele ou ela não dá conta. Porque o que se pede dele(a) é exatamente o mais difícil: reconhecer a própria ignorância e prestar atenção. A primeira tem a ver com humildade. A segunda, com paciência. E sem humildade e paciência nunca se aprende. O Smartphone, o iPod, o notebook, o tablet e o caralho a quatro da tal “revolução tecnológica” ou da “era da informação” nos deixaram muito arrogantes, tipo “Eu sei tudo, professor!”.

É engraçado: a maioria dos meus alunos não pergunta, mas afirma, declara, avisa, informa. Quem pergunta quer saber. Se o sujeito nunca pergunta é porque não tem o que aprender. A maioria de meus alunos parece ter vergonha de admitir que não sabe – ou, vai ver, tem mesmo certeza de que, se não está ali pra ensinar, pra aprender é que não está. Essa mesma maioria não suporta o esforço de estudar. E por isso reage às vezes até com violência, indignada por ter que rever toda a matéria do semestre – como se isso fizesse mal. Afinal, o que se espera de um estudante? Que estude, ora. Então, filho(a), se isso é muito difícil pra você, vá fazer outra coisa.

Informações complementares

1. O professor Joaci já abordou o tema ensino superior no SQS. Para ver seus outros textos, bem como de outros autores, basta ir na aba “No intervalo”.

2. Crédito de imagem do post: Perrimoon via Visual Hunt / CC BY-NC.

Joaci Pereira Furtado

Joaci Pereira Furtado

Graduado em história pela Universidade Federal de Ouro Preto, é mestre e doutor em história social pela USP. Foi editor de literatura e em ensaio da Globo Livros e criador dos selos de literatura Tordesilhas e Tordesilhinhas. Hoje é professor dos cursos de arquivologia e biblioteconomia da Universidade Federal Fluminense. É autor de Uma república de leitores (Hucitec) e organizou edição das Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga (Companhia das Letras).

3 comentários em “Tá muito difícil, professor!

  • 15 de fevereiro de 2016 a 20:07
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    Creio que o sufixo -logia venha do grego “Logos”, que também significa palavra escrita e palavra falada, mas a origem da aplicação do sufixo no contexto científico descende do uso filosófico do termo, assim como marcado por Heráclito e Platão e que veio a ser conhecido no português pela palavra “Razão”.

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  • Joaci Pereira Furtado
    16 de fevereiro de 2016 a 13:41
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    Oi, Ricardo! Creio que a origem grega do sufixo esteja bastante clara em meu post. Quanto à apropriação dele pela filosofia ou pela ciência, ou por disciplinas acadêmicas, imagino que esteja igualmente evidente. Minha opção, nitidamente simplificadora, uma vez que se trata de um texto não acadêmico num espaço idem, direcionado a um público não especializado (ainda que universitário), enfatiza a ideia de que, na universidade, aprendemos a discursar (racionalmente, como é de se supor) sobre a realidade da vida humana ou sobre objetos da natureza ou sobre abstrações que não necessariamente tenha a ver com uma e com outra. Obrigado por sua atenta leitura!

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