Carnaval: a festa que transforma o espaço público

O carnaval, quando chega, carrega consigo a expectativa de um uso diferente do espaço público

É incrível. É complexo.

Esses são adjetivos que atribuo ao carnaval por diversos motivos, mas sobretudo porque esta festa tem em si um enorme poder de fomentar o debate sobre os modos de ocupação do espaço público. O bloco mal chegou e traz consigo uma multidão de perguntas: “O carnaval gentrifica?”, “Dá visibilidade a áreas esquecidas da cidade?”, “É uma festa democrática?”, “E essa camarotização, pode?”

Não arriscaria a responder todas essas perguntas assim, e veja bem, nem sei se são passíveis de uma verdade única.

Diferentemente de outros rituais que se concentram Brasil afora, o carnaval pode ser considerado um ritual nacional. Sim, pode notar, o país todo tá aí esperando esse feriado chegar. E os que não estão, estarão em casa descansando ou amaldiçoando o carnaval. Logo, o tom revolucionário imbuído no carnaval já começa aí, presumindo-se o esquecimento do trabalho na-cio-nal-men-te por alguns dias. Resumindo: quem participa da festa está muito ansioso, esperando que ela comece, e quem não participa também está muito ansioso, esperando por algum descanso.

Imaginando a cidade como uma enorme interface a ser revelada, nos concentremos no bloco (literalmente) que resolveu participar da festa e falemos da experiência do usuário, ou seja, o cidadão comum que  serve-se da cidade de segunda a sexta enquanto um meio de ir e vir do trabalho. Aos fins de semana encontra poucas alternativas de lazer no meio urbano e acaba muitas vezes gastando estas preciosas horas de lazer em locais destinados ao consumo, como shoppings e outros centros comerciais: você até pode se divertir, mas vai ter que pagar por isso.

O carnaval, quando chega, carrega consigo a expectativa de um uso diferente do espaço público, especialmente da rua. Rua esta que por séculos vem sendo renegada, maldizida e malquista socialmente. É compreensível, tendo em consideração que o espaço urbano brasileiro ainda reflete o arranjo cultural da casa-grande que se instalou no Brasil colonial, expandindo-se ao sobrado quando migrou para a cidade, e que agora se equipara aos grandes condomínios fechados que comportam uma verdadeira cidade encerrada por portões e segurança máxima. Mas afinal, porque convivemos com um espaço urbano que é celebrado apenas uma vez por ano e negligenciado nos demais dias, mantendo-se a saudade do carnaval? Qual a origem provável dessa dicotomia no uso que fazemos da cidade? Bem, todas as configurações arquitetônicas citadas acima tinham suas atividades voltadas para o espaço interno da casa, concentravam-se assim no particular e no privado.

E a casa é, na verdade, o centro mais importante de adaptação do homem ao meio (…) antigo bloco partido em muitas especializações – residência, igreja, colégio, botica, hospital, hotel, banco – não deixa de influir poderosamente na formação do tipo social. Gilberto Freyre em Sobrados e Mucambos, página 22

A própria arquitetura do sobrado objetivava delimitar o espaço entre a plebe e a nobreza. Sendo assim, os andares mais altos eram destinados à nobreza e o térreo aos criados. Seguindo essa lógica, não é de se estranhar que a rua representasse um lugar de perigo no imaginário da sociedade brasileira que se delineava nesse tímido urbanismo nascente.

Se Michel De Certeau descreve o espaço como um “lugar praticado”, posso dizer que o carnaval é onde essa prática se realiza de maneira plena e abre as comportas para outras e futuras práticas no espaço público. Daí a importância de uma festa que nos coloca em contato com a rua e possibilite inúmeras experiências e ressignificações espaciais e funciona como um poderoso intermediário entre o cidadão e a cidade.

O carnaval re-começou na cidade de Belo Horizonte. Chego embaixo do Viaduto Santa Teresa pra fotografar um ensaio de um bloco e congelo no sentimento de que minha câmera não vai conseguir registrar ou que nem esse textão que eu acabei de escrever vai conseguir dizer. Tentando de forma simples: as pessoas estão dançando, as pessoas estão tocando instrumentos, ensaiando músicas, coreografias e os moradores de rua que ainda dormiam sob o viaduto agora acordam, dançam&observam. Eu, que balanço timidamente as pernas entre um clique e outro, também danço&observo esse fenômeno que é o dançar-até-se-dissolver que o carnaval produz:

E quando “tudo-si-acabá-na-quarta-feira”, que a cidade e nossas práticas dentro dela possam sempre renascer das cinzas de quarta. Ou da quinta de ressaca.

Links complementares

1. A foto do cabeçalho é de autoria de overmundo via Visual Hunt / CC BY-SA.

 

Laís Kunzendorff

Quase formada em Design Gráfico pela Universidade do Estado de Minas Gerais. É fotógrafa e também bolsista pelo CNPQ com a pesquisa “A festa que transforma o espaço público: a redescoberta do carnaval em Belo Horizonte.

Autor Convidado

Autor Convidado

O blog Só Que Sim conta com a colaboração de vários amigos e leitores que compartilham aqui seus textos e ideias.

Um comentário em “Carnaval: a festa que transforma o espaço público

%d blogueiros gostam disto: