Cinema brasileiro em cartaz: Boi Neon

Boi Neon não olha para caubóis e shows em arenas, mas sim para o curral e os sonhos lançados à poeira da estrada.

De antemão aviso que este filme não possui um ritmo acelerado. Tampouco possui uma história toda amarradinha. E muito menos te dará todas as respostas. Então, se você não gosta de filmes assim, pare por aqui. Por outro lado, se você quer ir adiante, garanto que será bem recompensado.

Nos créditos de abertura ouvimos o som de bois se movendo. A seguir, de forma aflitiva, vemos bois uns em cima dos outros, esperando para entrar na arena. Depois temos a arena deserta e a câmera foca outdoors de cavalos.

Estamos no universo das vaquejadas, e ao contrário de nos mostrar o glamour dos caubóis, o filme nos leva para o curral, para acompanharmos a vida de Iremar, vaqueiro que sonha trabalhar no ramo da moda, e seus companheiros de estrada, que percorrem o sertão nordestino dentro de um caminhão conduzido por uma mulher, Galega. E ao ver Cacá, filha de Galega que cresceu sem pai, Iremar e outros dois vaqueiros dividindo a carroceria com o gado, começamos a entender as cenas de abertura. Os cavalos, sempre exuberantes e distantes, representam os sonhos dos personagens, enquanto eles vivem relegados e limitados à companhia dos bois.

O que vemos na tela se aproxima muito mais de um documentário que de um filme convencional, tamanha a naturalidade que os atores conseguem imprimir. Vemos Iremar cuidando dos bois, mas pensando em trabalhar com costura e desenho de roupas, com a mesma naturalidade com que Galega se depila na boleia do caminhão. E tal naturalidade é surpreendente, tendo em vista as inúmeras fugas aos esteriótipos, quando levamos em conta o cenário apresentado. E enquanto nos sentimos melancólicos ao ver o tratamento destinado aos bois, ou pessoas movimentando um negócio no mínimo maldoso, nossos olhos ganham algum conforto em outras cenas, como num malfadado roubo de sêmen ou quando um vaqueiro muito vaidoso alisa o cabelo em meio ao pó.

Boi Neon recebeu prêmios nacionais e internacionais. Se você quiser conferir o filme em Bh, CORRA, pois ainda está em cartaz no Cine 104!

Até o próximo filme! 😉

Links complementares

1. Agradeço à equipe do filme, que  gentilmente me cedeu a imagem em destaque e as fotos no corpo do texto <3

2. A imagem do cabeçalho é de autoria de photographer padawan *(xava du) via VisualHunt / CC BY-NC-ND.

Pedro Daldegan

Pedro Daldegan

Mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é aluno de doutorado na mesma instituição, com ênfase em álgebra. Quando não está no cinema ou matematicando, é leitor, cozinheiro e poeta. Há boatos de que também desenha, mas só temos conhecimento dos seus deformados bonecos de palitinho.

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