Estudantes e “vida social”

Quando um(a) estudante reclama que não tem mais “vida social” depois que entrou na universidade, não percebe que ao decidir-se pelos estudos “superiores” envolve-se de fato com uma transformação de tal ordem na própria vida que ela não poderá continuar mais sendo apenas a mesma dos tempos escolares passados.

Estudar, quando realizado ativa e engajadamente, tende a mudar a vida de estudantes e estudiosos, a reorientar os hábitos, as preferências, as expectativas, os interesses, o ponto de vista. É dos mais importantes momentos de constituição da identidade pessoal e intelectual e de invenção do próprio lugar social e profissional.

Pretender passar por tamanha experiência sem mudar é como pretender viajar pelo mundo (como a caricatura do turista japonês que se esforça para fotografar tudo e só olhar quando volta para casa) mas manter-se inume (protegido?) às variedades das culturas, dos costumes, dos idiomas, dos valores, das circunstâncias e de todas as diferenças em relação à própria origem. Às surpresas do acaso, enfim.

A experiência universitária comporta a possibilidade de tornar-se cosmopolita viajando (no tempo e no espaço) pelo universo contido nos livros, muito maior do que o meramente geográfico; infinitamente mais interessante do que o banal e aborrecido imediatismo do suposto “dia-a-dia”.

E, quem sabe?, fazer deste tipo de domínio o lar e a família para os quais sempre se pretende voltar não seja uma consequência insuspeitada e, por isso mesmo, extraordinária.

 

Denilson Cordeiro

Graduado e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Ex-jogador de futebol, ex-feirante, ex-balconista (em loja de discos) e ex-florista. Atualmente a Universidade Federal de São Paulo tem seu passe e lá, dizem, tem sido professor de Filosofia.

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4 comentários em “Estudantes e “vida social”

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