A indústria da dúvida

Grandes indústrias criam um falso-ceticismo contra estudos científicos que as desfavoreçam. Como elas fazem isso?

Há algumas décadas as indústrias do cigarro, carne e álcool vêm desinformando a opinião pública por meio de veículos de comunicação e cientistas amigáveisPor que e como elas fazem isso?

Bem, o motivo é óbvio: continuar vendendo. Portanto, este post é dedicado a explicar como grandes empresas se movimentam para descredibilizar estudos científicos; e discutir alguns exemplos no mundo e aqui no Brasil.

São vários os artifícios empregados por grandes corporações a fim de confundir seus consumidores quanto aos perigos de seus produtos. Os mais comuns são: negar a existência do problema, diminuir o problema, exigir mais evidências, desviar o foco do debate, financiar grupos aparentemente neutros.

1. Negar a existência do problema

Tática simples. Consiste em negar sempre. Mesmo na presença de forte evidência científica. Caso recente no Brasil: após o rompimento da barragem em Mariana, a Samarco negou diversas vezes que outras barragens tivessem sofrido danos, mesmo com laudos apontando o contrário.

2. Diminuir o problema

Quando estudos científicos se tornam irrefutáveis, o jeito é diminuir o problema: ah, mas tudo é assim!.

Nas décadas de 60 e 70 a indústria do tabaco se viu “obrigada” a combater a ciência. Surgiam fortes indícios da relação entre cigarro e câncer de pulmão. Não só isto, como também estudos que apontavam o cigarro como principal causador de incêndios residenciais. Claro que eles reagiram. Uma das táticas adotadas pela maior produtora de cigarros americana, Philip Morris, era reduzir o problema a uma mera questão de mau uso do cigarro. Um de seus executivos deixou isso bem claro em uma de suas declarações :

Tudo pode ser considerado nocivo. Molho de maçã pode ser nocivo se usado em grandes quantidades.

Percebe a jogada? Eles simplificam o problema e desviam o foco do debate. Sim, é verdade que água pode ser nociva se você tomar 20 litros num gole só, por exemplo. Entretanto, a discussão é a respeito de cigarro x câncer, e estudos apontam que o primeiro causa o segundo. Simples. Cigarro causa câncer, ponto final. O fato de outros produtos também serem nocivos à saúde humana não torna menos ou mais verdade a relação de causa entre cigarro e câncer. Quando declara que tudo pode ser nocivo, a indústria joga para o consumidor a culpa e reduz os estudos a mimimi acadêmico.

3. Desviar o foco do debate

No dia 26 de outubro de 2015, a OMS (Organização Mundial de Saúde) publicou um relatório — bastante claro, por sinal — de um estudo cujo resultado foi: o consumo de carne processada e embutidos pode causar câncer. No relatório, os pesquisadores apontam que o consumo de 50 g/dia de qualquer tipo destes produtos aumenta em 18% as chances de câncer colorretal. Reportagens surgiram com o objetivo de informar a população, como por exemplo esta ótima matéria do El País (compare com a matéria publicada pela revista Veja).

Em contrapartida, dias depois, a mesma imprensa que informou, veio desinformar e — quem sabe — socorrer seus “patrões”. Três dias após o anúncio da OMS, o El País publicou uma reportagem intitulada OMS: Comer mata?. Título de péssimo gosto, provocativo e desinformativo. Um título como este cumpre bem o papel de reduzir a importância do estudo da organização. Faz parecer que há um certo exagero e novamente coloca resultados sérios a respeito da alimentação num patamar de mimimi acadêmico.

Pior foi a matéria publicada pelo Paraná Online cujo título é bem direto: Você não precisa deixar de comer embutidos por causa do alerta da OMS. Além de tendenciosa, a reportagem é perigosa. Há uma interpretação equivocada do resultado apresentado pela OMS. Em seu relatório, a organização observa que o consumo de 50 g/dia aumenta em 18% o risco de desenvolvermos um câncer. Mas ele NÃO diz que consumos abaixo deste valor são seguros. Pode ser que o consumo de um átomo destes produtos sejam suficientes para aumentar suas chances de desenvolver um câncer.

Para ficar mais claro o erro de interpretação, imagine um estudo hipotético — exagerado para facilitar a explicação — trazendo a seguinte conclusão: três tiros na cabeça mata. Então quer dizer que dois pode? Umzinho só então é de boa? Socorro!

A reportagem apela para aquela velha história contada pela minha avó: pode-se comer de tudo um pouco. Você pode comer prego, desde que seja em poucas quantidade e sua dieta seja balanceada? Alguém me ajuda!

Além destes problemas, a mesma matéria ainda muda o foco do problema sem nenhum pudor. A reportagem intitulada “Você não precisa deixar de comer embutidos por causa do alerta da OMS” termina trazendo um estudo a respeito dos danos à saúde provocados pela combinação álcool + energéticos. Qual o propósito? Qual a ligação com o título da matéria?

Estudos científicos estão aí e muitos deles trazem informação séria, embora nem sempre completa. E nestes casos, talvez a postura mais inteligente a se adotar seja a de não assumir resultados que não foram ditos e não simplificar as conclusões.

Em seu livro Merchants of Doubt (Mercantes da dúvida), Naomi Oreskes faz uma observação importante:

Não é porque nós não sabemos tudo, que nós não saibamos nada.

O assunto nos seriados

A relação entre a indústria do tabaco e estudos científicos aparece no belíssimo seriado Mad Men. Gostei muito! Se você ainda não o conhece, aí vai um pequeno trailer:

Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro

Doutor em matemática pela UFMG, mas gosta de uma porção de outras coisas: linguagens de programação, ciência, literatura, poesia, aquarela e se imaginar em mundos distantes. Tem compulsão por comprar livros e realizou o sonho da máquina de café expresso própria graças à namorada. Ficou conhecido mundialmente como o primeiro matemático a marcar 150 pontos em uma única partida de peteca. Nas horas vagas estuda probabilidade e é professor.

2 comentários em “A indústria da dúvida

  • 8 de fevereiro de 2016 a 19:01
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    Gostei bastante de seu artigo e concordo com a importância de tecer sempre uma visão crítica a respeito do jornalismo em geral (e do dito “científico” de modo especial). Só gostaria de atentar para a expressão “um átomo”, que soa mais como uma premissa homeopática e destoa do teor restante do texto, excetuando-se este exagero (talvez uma figura de linguagem levada às ultimas consequências?) é muito interessante e revelador. Em princípio um átomo de carne e um de vegetais ou de água tem o mesmo risco atrelado à sua ingestão. Uma molécula já soaria forçado, e acho que o autor poderia explicar muito melhor do que eu a facilidade que incorreções deste tipo podem ser utilizadas por quem tem interesse em desqualificar o inteiro teor de uma análise com base em uma expressão infeliz.

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  • 13 de fevereiro de 2016 a 17:51
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    Muito legal o texto Rodrigo!

    É muito interessante este tipo de reflexão que mostra como são refinado os recursos de sedução que a mídia consegue usar para garantir que um ideia/produtos seja consumido, mesmo quando elas não estão atreladas a nenhum discurso científico ou de verdade.

    São curiosas também as discussões que mostram como a mídia consegue atingir algo que parece ser a nós tão intimo: o desejo.Não necessariamente consumimos o que é essencial para existência, mas sim aquilo que garanta nossa sobrevivência dentro de um grupo… Fica a dica para futuras discussões =)

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