Atirou na memória, acertou o coração

Somos feitos de memórias: é preciso recorrer à memória documental para não se repetir os erros do passado; é preciso recorrer à memória das coisas que já vivemos para tomarmos decisões futuras; é preciso recorrer à memória dos momentos felizes que passamos ao lado de pessoas que já se foram para suportamos a dor da ausência. A memória faz parte, assim, da construção de uma identidade coletiva e individual.

Às vezes, a música é o gatilho que, quando puxado, atira na memória e, à queima-roupa, acerta o coração. Pode ser que durante algum período difícil de sua vida você escutou alguma música que te ajudou a superar seus problemas. Talvez, durante o preparo do almoço de domingo, sua avó entoava da cozinha alguma canção antiga, enquanto, feliz da vida, ela refogava o alho e a cebola. O seu primeiro beijo pode ter acontecido ao som de alguma música. Todas estas músicas fixam-se aos momentos em que elas foram ouvidas e, ao se fixarem, passam a fazer parte da trilha sonora de nossas vidas.

As Canções, um dos últimos filmes do diretor Eduardo Coutinho, conta a história da trilha sonora da vida de dezoito pessoas. O cenário do filme é absolutamente simples: um palco, uma cortina preta e uma cadeira. A luz é sempre a mesma. As câmeras, em suas posições fixas, não estão a espera da primeira lágrima para, manipulativamente, se aproximarem do rosto de quem chora. Não há zoom. Os entrevistados chegam, sentam em uma cadeira e começam a cantar e a falar das músicas que marcaram suas vidas. As Canções, assim como nós, também é feito de memórias.

Sônia, em 6 de julho de 1969, estava sentada na calçada de sua casa quando foi surpreendida ao receber uma carta de seu futuro namorado. Na carta, a letra de Minha Namorada, de Vinicius de Moraes. O namoro acabou, mas a carta ainda existe. Durante a entrevista, Sônia, uma senhora de voz calma e gestos tranquilos, retira da bolsa a carta que fora escrita há mais de 40 anos e recita os versos finais da canção:

E você tem de ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois

Seu Zé Barbosa já deve ter mais de 70 anos e diz que as meninas de hoje estão certas: “não nasceram para ser escravas de ninguém”. Conta que já fez a mulher sofrer e lembra dos tempos em que ia na zona escutar Orlando Dias:

Tu és a criatura mais linda que os meus olhos já viram
Tu tens a boca mais linda que a minha boca beijou
São meus os teus lábios

Tem também Maria de Fátima, uma mulher de longos cabelos amarelos e encaracolados que, após cantar o primeiro verso da canção que marcou sua vida, engasga e não consegue ir adiante. Ela respira forte e conta que, anos atrás, ao chegar em casa, escutou o marido cantando, ao telefone, para a amante:

Olha, você tem todas as coisas
Que um dia eu sonhei pra mim […]
Olha vem comigo
Vem comigo aonde eu for…
Seja minha amante e meu amor…

Eu assisti As Canções no cinema e, quando o filme acabou e as luzes se acederam, eu levantei-me de minha poltrona com a certeza de que aquela tinha sido a sessão mais bonita de toda minha vida. De maneira comovente, durante toda a sessão, vozes contidas iam surgindo da plateia: o público virou personagem. E assim, eu que fui para ver o filme, acabei presenteado com a execução ao vivo da trilha sonora da vida de várias pessoas desconhecidas. A mulher que estava sentada atrás de mim cantou Retrato em Branco e Preto tão emocionada que eu tive a sensação de que o seu canto se fez presente naquele momento porque algum grande amor que ela viveu no passado ficou.

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior

Saí do cinema com as emoções à flor da pele e durante o caminho de volta para casa me veio à memória Aquarela, de Toquinho, certamente a faixa número 1 da trilha sonora de minha vida. A música marcou tanto minha infância que até hoje, ao escutá-la, eu sinto um pouco de tristeza. No final da canção, tudo que tinha sido desenhado nos versos iniciais – o sol, o castelo, o guarda-chuva, o navio – se descolore. Pode ser que no fim de nossas vidas tudo que vivemos desapareça: “o fim da estrada ninguém sabe bem ao certo onde vai dar”. O que nos resta é torcer para que durante a caminhada nossas memórias não se descoloram, pois, no fim das contas, lembrar o que aconteceu é reafirmar – e descobrir – o que se é.

Informações complementares:

  1. Se As Canções me permitiu descobrir um pouco mais sobre mim, A Travessia me permitiu ser, por um pequeno instante, aquilo que eu não sou. Relembre a resenha do #sqsblog para o filme A Travessia no texto Da possibilidade de ser o que não é.
  2. A imagem do cabeçalho é de autoria de Ggia / CC-BY-SA-3.0.
  3. A imagem em destaque é de autoria de daliborlev via Visual Hunt / CC BY-NC-SA.
Pedro Franklin

Pedro Franklin

Aos cinco anos resolveu que seria veterinário, mas abandonou esta ideia aos oito. Depois, aos dez, achava ballet a coisa mais bonita do mundo, mas acabou matriculado em uma escolinha de futebol e se tornou um bom goleiro. Aos 14 contou para todo mundo que seria zoólogo e, aos 15, cineasta. Por fim, apaixonou-se pela matemática aos 18 e, anos depois, se tornou mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é doutorando em estatística também pela UFMG, mas ainda não sabe o que fazer da vida. Em um mar de incertezas, possui uma uma grande certeza: sua paixão por gastronomia, cinema e literatura.

Um comentário em “Atirou na memória, acertou o coração

  • 27 de janeiro de 2016 a 23:31
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    A vida deve ser contada com uma trilha sonora. Eu me lembrei imediatamente de uma música que meu namorado cantou quando a gente estava se conhecendo: João e Maria interpretada pelo Chico. Na hr eu achei tão sensível. Ele não sabe mas para mim eh a nossa trilha.

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