Não tenho tempo

Mentira. O que você não tem é vontade. E não, não é porque trabalha demais. Se ocupa a maior parte do tempo trabalhando é porque está esperdiçando energia – e, olha só, tempo! – com o que não é trabalho. Trabalhar já foi condenação bíblica – “Comerás o pão com suor do teu rosto”. Agora a pessoa goza quando fala que “trabalha demais”. O próprio mundo do trabalho criou o clima pra você se sentir muito ocupado, muito atarefado, muito sem tempo. Horas no trânsito, relatórios pra ler ou escrever, e-mails pra mandar e responder, formulários pra preencher, telefonemas pra atender e fazer, mensagens no WhatsApp pra teclar, reuniões pra participar, serviço “pra ontem” pra terminar em casa, colegas escrotos e chefes opressores pra suportar… Em geral, tudo bastante inútil, na prática, mas indispensável para nos fazer sentir e dizer “trabalhando demais” e, por isso, gozando demais. Então não espanta que o resto fique menos importante. Estudar, por exemplo. Claro que o trabalho é que paga as contas. Mas que contas?

Uma pesquisa recente com graduandos da Unicamp (Ruth C. L. Cardoso e Helena Sampaio, “Estudantes universitários e o trabalho“), revelou que a maior parte deles continua vindo da tal “classe média tradicional”. Só que, ao contrário de antes, a maioria trabalha. Mas não é pra rachar as despesas de casa, não. É pra se manter na moda mesmo. Consumir o que a galera tá consumindo. Uma coisa é ajudar no aluguel. Outra é não suportar três meses usando o mesmo celular. E não passa pela cabeça da figura que ela não tá gastando dinheiro. Tá gastando tempo. Tempo de vida. Porque pra comprar qualquer coisa com a própria grana ele terá que gastar tempo. Tempo de vida. Trabalhando.

Porque trabalham. Por isso sempre pedem menos. Menos aulas. Menos leituras. Menos tarefas. Quer dizer, menos saber. Porque não têm tempo. Porque trabalham.

É preciso ter muito claro o que se quer, quando a gente entra na universidade. Porque se você não tem tempo pra ela, principalmente pra ela, é porque não tem vontade de estar nela. Ou quer estar, mas não no curso que escolheu. Tive um aluno que passava a aula toda desenhando. Não é exagero. Ele chegava, abria o caderno, abaixava a cabeça e desenhava, desenhava, desenhava. A aula toda. Desenhos bem detalhados. Bem caprichados. Não, não dou aula pra belas artes ou arquitetura. Mas pra muitos alunos que não querem fazer o curso que fazem. Então não dá outra: a maioria não lê, não participa, não fala. Alguns cochilam. Outros dormem na maior cara de pau. Todos, ou quase todos, se dizem sem tempo. Porque trabalham. Por isso sempre pedem menos. Menos aulas. Menos leituras. Menos tarefas. Quer dizer, menos saber. Porque não têm tempo. Porque trabalham. Mas trabalham pra quê? Não é estudando mais que trabalharão melhor? Não entendem que empurrar o curso com a barriga porque trabalham é empurrar a vida pra vala comum da mediocridade? Não é triste ver que o maior – se não o único – gozo dessa figura será passar a maior parte da vida dizendo que trabalha demais?

Não estou dizendo pra você largar seu emprego ou estágio. Claro que, se der, largue. E aproveite esse tempo pra estudar e usufruir o que a universidade tem de bom (tá acabando, mas ainda tem). Se, porém, precisa tanto desse salário, por menor que seja, fica a dica: a vida – e o tempo dela – não se ganha, mas se gasta. Não tem refil. Não dá pra comprar mais alguns anos no supermercado ou por delivery. Fique esperto, porque vai chegar uma hora em que, de fato, você não terá mais tempo.

Links interessantes

1. Este texto foi inspirado pelo depoimento de José “Pepe” Mujica, ex-presidente e atual senador do Uruguai, ao documentário Human, disponível aqui.

2. Em Algumas verdades sobre a universidade que não te contaram, o professor Joaci Furtado fala mais sobre o ensino superior.  “Ensino superior é pra pensar, o que é beeem mais difícil e complexo do que apenas aprender uma informação ou técnica que amanhã tá velha.” Confere lá!

Joaci Pereira Furtado

Joaci Pereira Furtado

Graduado em história pela Universidade Federal de Ouro Preto, é mestre e doutor em história social pela USP. Foi editor de literatura e em ensaio da Globo Livros e criador dos selos de literatura Tordesilhas e Tordesilhinhas. Hoje é professor dos cursos de arquivologia e biblioteconomia da Universidade Federal Fluminense. É autor de Uma república de leitores (Hucitec) e organizou edição das Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga (Companhia das Letras).

8 comentários em “Não tenho tempo

  • 17 de dezembro de 2015 a 20:03
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    Melhor leitura no final de um ano cuja desculpa principal da minha figura foi “tenho trabalho”. Obrigado, Joaci!

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    • Joaci Pereira Furtado
      16 de janeiro de 2016 a 13:51
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      Bom saber que gostou, Diogo! Melhor ainda é vê-lo aqui. Felicidades, sempre!

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  • 12 de fevereiro de 2016 a 17:08
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    Excelente texto! Seria ótimo se ao sabermos como trabalhar melhor, pudéssemos desfrutar de mais horas livres. Mesmo realizando meu trabalho em um menor tempo, sou obrigada a cumprir horário , “bater ponto”. É onde acabamos por dar lugar ao ócio e alimentar a preguiça de não saber.

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    • Joaci Pereira Furtado
      18 de fevereiro de 2016 a 08:40
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      Oi, Bray! De fato, o ócio e a preguiça são sintomas e não causa do ensino desestimulante e embrutecedor. Mas, no trabalho, somos impelidos a fazer coisas que não têm relação imediata com ele ou então somos forçados a tarefas burocráticas, monótonas, nada criativas, que apenas preenchem as horas em que devemos ficar à disposição dele. Pelo menos em alguns setores, é absolutamente possível trabalhar menos e produzir até mais do que durante as 8 horas mínimas em que somos confinados a um ambiente de trabalho. O que está ocorrendo, porém, é que, além da jornada oficial de trabalho, o sujeito leva tarefas pra casa, quase dobrando a jornada. E parece que a tendência é piorar…Obrigado por sua leitura! Continue com a gente!

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  • 25 de fevereiro de 2016 a 14:06
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    Caro Joaci,
    Sua reflexão é interessante. Mas não dá para fazer dos graduandos da Unicamp uma amostragem do estudante universitário brasileiro. E muito menos classificar de “recente” uma pesquisa feita há mais de 20 anos. De lá para cá, o perfil do estudantado mudou muito, com as políticas de expansão do ensino superior, com bolsas e com a introdução das cotas. Há preguiça e consumismo, claro, mas não se pode desprezar a realidade do estudante trabalhador. O desafio não se resolve apenas com mais “força de vontade”; exige políticas de assistência a um público menos privilegiado que chega às salas de aula graças à relativa democratização do acesso à universidade.

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    • Joaci Pereira Furtado
      26 de fevereiro de 2016 a 21:48
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      Prezado Luís Felipe,

      Mesmo admitindo o envelhecimento da pesquisa indicada em meu post, as classes A e B continuavam hegemônicas nas universidades federais brasileiras (em TODAS elas) pelo menos até 2010. É o que indica relatório da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES), disponível aqui: http://www.andifes.org.br/wp-content/files_flutter/1377182836Relatorio_do_perfi_dos_estudantes_nas_universidades_federais.pdf Na página 20 do documento consta que, naquele ano, 43,67% dos estudantes das IFES pertenciam às classes C, D e E. Em 1996/1997, ainda segundo o mesmo documento (página 21), o percentual dos mais pobres era de 44,3%. Ou seja, nos últimos vinte anos houve até um ligeiro decréscimo proporcional da presença das classes mais baixas nas universidades federais, apesar das políticas de inclusão do governo (claro que o número absoluto de vagas teve um salto enorme, nesse período, graças ao REUNI, ao PROUNI e ao FIES, elevando o contingente de matriculados em universidades públicas e privadas para 7.055.499 em 2012, conforme o Censo do Ensino Superior).

      O objetivo de meu texto é justamente alertar o estudante, sobretudo o socialmente menos favorecido, para aquilo que cabe a ele fazer. E somente a ele, sem apelar às condicionantes socioeconômicas como muletas. Não podemos usar das chamadas “carências” para dispensar os estudantes egressos das camadas mais baixas da reflexão sobre seus próprios desejos. Isso não é privilégio de quem nasceu nas classes A e B. Boa parte do contingente vindo das classes C, D e E chega à universidade com o sonho da ascensão social pelo diploma, o que me parece uma falácia alimentada inclusive pela universidade pública — ela mesma igualmente rendida à lógica do mercado de trabalho (que é mercado e, como tal, espaço de compra e venda). Bolsas de alimentação, moradia e transporte me parecem pouco, mas frequentemente são propagandeadas como investimento em qualidade do ensino. É investimento, com certeza, mas não em qualidade, e muito menos em ensino. Este deveria — e não está sendo — lugar para resgatar a autonomia crítica que a escola sequestrou do aluno desde que ele ingressou no ensino fundamental. A universidade abandonou, faz tempo (bem mais que vinte anos), essa missão de efetivamente transformar as pessoas que passam por ela. Para boa parte dos alunos, temo que a maioria, o que interessa mesmo é o diploma — qualquer diploma –, a ser conseguido de qualquer jeito. De preferência, com o mínimo de envolvimento (e, portanto, de esforço), já que se trata de algo que, ao fim e ao cabo, talvez não seja o que realmente ele quer.

      Obrigado por sua leitura! Continue com a gente.

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  • 8 de março de 2016 a 19:49
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    Muito bom o texto elaborado por você, como comentado anteriormente, é um tapa na cara pra quem tem essa possibilidade de estudar sem trabalhar, e para o outro perfil também. Atualmente estou cursando Engenharia Mecatrônica – 2º período numa cidade perto da sua! Ouro Branco, e vendo tal texto, diante das condições financeiras que meus pais têm (não tão facilmente, mas com trabalho), vejo que realmente devo dedicar o meu máximo à universidade. Muito obrigado pelo seu texto, e espero que você e os outros autores continuem atuando intensamente “no intervalo”. Nós estudantes, carecemos de um blog que nos leve à reflexão que vocês nos apresentam. Os números são maravilhosos, mas vejo, que há necessidade, de pensarmos num contexto maior, o que as vezes com “o tempo” conforme comentado parece impossível, mas que com seus artigos, nos levam a usar minutos para reflexão sobre nossas atitudes. Atenciosamente, Freud Attilio e meus sinceros obrigados.

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    • Joaci Pereira Furtado
      9 de março de 2016 a 08:24
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      Freud, caro, muitíssimo obrigado por suas palavras! Fico feliz em saber que esse texto o incomodou, de alguma forma. Essa é a ideia… Continue com a gente! Forte abraço do Joaci

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