“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver…”

Lista de livros com grandes começos!

Após ler a abertura de Memórias póstumas de Brás Cubas, o leitor descobre que o livro será narrado por uma pessoa que já morreu e que o defunto-autor (ou autor-defunto?) dedica as próximas páginas do livro ao verme que primeiro roeu suas entranhas. A abertura é tão impactante que é fácil imaginar o leitor virando rapidamente a primeira página do livro para descobrir mais detalhes da história.

Um começo de livro normal, sem grandes emoções, não deve ser motivo – claro! – para deixar a leitura de lado, mas um começo de história arrebatador é capaz de cativar o leitor e levá-lo a devorar rapidamente os próximos parágrafos do livro. Rodrigo Ribeiro, Pedro Daldegan e Pedro Franklin compartilham alguns começos de livros que marcaram suas vidas. Cada um deveria escolher um livro diferente e, para evitar que amizades fossem desfeitas, decidiu-se que Cem anos de solidão não poderia ser selecionado. Todos os livros escolhidos possuem menos de 150 páginas e podem ser lidos numa única tarde: na fila do banco, no intervalo da aula ou dentro do ônibus. Boas leituras!

1. A contadora de filmes de Hernán Rivera Letelier, por Pedro Daldegan.

Como em casa o dinheiro anda a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir. Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala.

Pedro DaldeganAo ler este primeiro parágrafo fiquei muito emocionado ao ver que, apesar da miséria que ‘andava a pé’, moedas estavam sendo contadas não para comprar o pão, mas para uma pessoa ir ao cinema! Imediatamente senti empatia e me imaginei ali, sentado no chão da sala, junto com minha família, esperando alguém passar pela porta e contar uma história. E devo dizer, minha espera não foi em vão.


 2. Crônica de uma morte anunciada de Gabriel García Márquez, por Rodrigo Ribeiro.

No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros. “Sonhava sempre com árvores”, disse-me a mãe, Plácida Linero, recordando vinte e sete anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata.

Rodrigo RibeiroAssim tomei conhecimento da morte de Santiago Nasar, lendo as primeiras palavras do livro Crônica de uma morte anunciada do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Se a morte do personagem principal foi tão imediata, também foi a minha simpatia por ele. Na terceira linha eu já gostava daquele tal de Santiago Nasar, um sujeito que acordou 5 e 30 da manhã e se sentiu feliz sonhando com árvores e chuva miúda. Chegado o fim do primeiro parágrafo, eu estava de luto por Santiago Nasar. E voltaria a ficar, enquanto ele morria a cada novo capítulo e se tornava um morto mais morrido a cada novo detalhe “daquela segunda-feira ingrata.”


3. O legado de Eszter de Sándor Márai, por Pedro Franklin.

Não sei o que Deus ainda reservou para mim. Entretanto, antes de morrer, quero contar a história do dia em que Lajos esteve comigo pela última vez e me roubou. Adio estas anotações há três anos. Sinto agora como se uma voz, a que não consigo me opor, me incitasse a narrar os acontecimentos daquele dia – e tudo o que sei sobre Lajos – pois esse é meu dever e não me resta muito tempo. Essa voz é inequívoca. É por isso que obedeço, em nome de Deus.

Eu não Pedro Frankilnsabia quem Lajos era, de onde ele vinha, e se de fato ele tinha cometido algum roubo, mas após ler as duas primeiras linhas de O legado de Eszter eu já o detestava. O primeiro parágrafo do livro é absolutamente encantador. Em poucas palavras, o escritor húngaro Sándor Marai consegue nos oferecer um começo de história carregado de sentimentos e mistérios. O livro é bem curtinho – só tem 120 páginas – e, após a leitura do primeiro parágrafo, não consegui me opor à voz da personagem que, antes de morrer, deseja nos contar algo: li o livro de uma vez só. Se nas primeiras linhas de O legado de Eszter eu já detestava Lajos, ao terminar a leitura eu passei a odiá-lo. Se algum dia eu vê-lo caminhando em minha direção, atravessarei a rua só para não ter que ver a cara dele. Ordinário.


10 comentários em ““Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver…”

  • 3 de dezembro de 2015 a 15:05
    Permalink

    Também tenho um verdadeiro amor com o GG Marquez! Concordo plenamente em excluir Cem anos de solidão da disputa e na belíssima escolha do Rodrigo. Marquez não decepciona: livros curtos e fodásticos. Aos Pedros: sugestões anotadas! Preciso mesmo ler mais e novos autores.

    Responder
    • Rodrigo Ribeiro
      3 de dezembro de 2015 a 19:04
      Permalink

      Tanto amor que o trata por GG!

      Responder
    • Pedro Franklin
      5 de dezembro de 2015 a 20:40
      Permalink

      Oi, Ana. Eu costumava chamar o senhor Marquez de Gabo, mas achei GG mais íntimo e passarei a adotá-lo daqui em diante^^ Eu e Pedro outro temos, cada um, uma edição d’A contadora de filmes. Se quiser, podemos emprestar!

      Responder
  • Luís Fernando Viégas
    3 de dezembro de 2015 a 18:28
    Permalink

    A seleção de vocês é ótima! Carlos Ruiz Záfon começa Marina com um parágrafo que me fez ler o livro em um tiro único.

    “Marina me disse um dia que a gente só se lembra do que nunca aconteceu. Ainda ia se passar uma eternidade antes que eu pudesse compreender essas palavras. Mas é melhor começar do início, que nesse caso é o final”.

    Responder
    • Pedro Franklin
      5 de dezembro de 2015 a 20:37
      Permalink

      ô Luís, obrigado pela indicação. Nunca li nada deste autor, mas o trecho compartilhado por você já me fez acrescentar o livro na minha lista de próximas leituras.

      Responder
    • Pedro Franklin
      5 de dezembro de 2015 a 20:35
      Permalink

      Ei, Mari. Eu tenho A contadora de filmes e Crônica de uma morte anunciada. Estão à sua disposição^^

      Responder
  • 20 de dezembro de 2015 a 23:20
    Permalink

    Daldegan e Franklin, quero maisss, gostei! beijos

    Responder
    • Pedro Daldegan
      9 de janeiro de 2016 a 15:17
      Permalink

      Oi Gabi! Fico muito feliz que tenha gostado. Pretendemos fazer uma sequência de posts seguindo a mesma linha. Em breve! ^^

      Responder
  • Pingback: De olho no Oscar: O Filho de Saul - Só Que Sim!

%d blogueiros gostam disto: