Tutorial 8 de março

Para você, homem, que não quer passar vergonha no próximo Dia das Mulheres. Ou ainda: para não dizerem que as feministas não são didáticas.

Para quem ainda não sacou, 8 de março é, para nós, mulheres, sobre luto, dor e luta. E a culpa é de quem? Isso mesmo, é de vocês – que se não nos oprimem diretamente (e grande parte de vocês o faz), se beneficiam dessa estrutura machista que faz com que o mundo seja esse jogo de baralho viciado feito para vocês ganharem e nós perdermos quase sempre.

É uma culpa coletiva, percebem? Ainda que vocês digam: “mas eu não sou feminicida, não estupro, não bato na minha companheira”, é bem mais confortável pra você viver em qualquer parte deste planeta do que para a maioria de nós. Machismo, afinal, é um sistema de opressão que nega direitos e oportunidades a pessoas do gênero feminino.

Traduzindo: em certa medida, vocês se dão bem às custas de a gente se f*der.

Desenhando: quando você não é obrigado socialmente a criar seus filhos sozinho ou com a maior parte da responsabilidade; quando pode andar a qualquer hora do dia ou da noite sem o risco de sofrer violência sexual; quando não tem sua voz silenciada em função do seu gênero; quando nunca tem sua inteligência questionada por ser homem; quando jamais tem sua moral sexual julgada em nenhuma hipótese; quando ganha mais que uma mulher que exerce o mesmo cargo que você (às vezes com mais anos de estudo): o mundo é seu. Nós já começamos perdendo, e o placar fica ainda mais desvantajoso se incluirmos aí outras opressões combinadas que muitas de nós sofrem, como transfobia e racismo.

Por isso, não nos deem “parabéns”. Entendem a gafe? Imaginem, por exemplo, um branco dando parabéns a uma pessoa negra pelo “dia da consciência negra”. Alô? O Dia da Consciência Negra, amigo, não é aquela data em que todo branco sensato recolhe sua cara cheia de privilégios no cantinho do pensamento para refletir sobre o mérito que não existe em nascer beneficiário da “bolsa-branquitude” –  essa linha de crédito sustentada por 354 anos de escravidão, mais um século e meio de racismo pós-abolição da escravatura?

O mesmo vale para você, homem, em 8 de março – data que, tanto para vocês, quanto para nós, é de reflexão. Com a  diferença de que nós pensamos no longo caminho que ainda temos a percorrer até sermos finalmente tratadas como seres humanos plenos. Já a vocês, não caberia refletir sobre o fato de que têm o privilégio de simplesmente não ter que pensar sobre isso? “O homem”, afinal, é, inclusive na língua Portuguesa, a própria definição de humanidade.

Portanto, não nos dê flores. Não publique mensagens “fofinhas sobre mulheres que enfeitam o mundo com sua beleza” nas redes sociais. Não seja invasivo querendo dar pitacos nas nossas discussões, apontando o que é machismo e o que não é. Quem diz o que é e o que não é violência é quem apanha. Nunca quem bate.

Reconheçam seus privilégios. Vão se desconstruir junto com seus brothers.

E nos deem um tempo. Pelo menos no Dia das Mulheres. Ainda que, dia 9, vocês comecem tudo outra vez.

Leia mais sobre o #AgoraÉQueSãoElas no SQS:

1. “Mulheres bem esclarecidas que ainda escolhem a profissão pelo preconceito e medo de serem taxadas como menos mulheres.” Em A primavera não chegou ao bloco cirúrgico, Ana Cecília dialoga sobre a presença da mulher na medicina.

2. “O cara partiu pra cima. Ficou naquela cena de ficar te cercando, põe o braço por aqui, te encurrala por ali, te impede de passar por ali, é simpático e agressivo ao mesmo tempo.” Em Ele passou do meu limite, Marcia Padilha relata um episódio que se passou com ela, dentro da universidade.

 

Cecília Emiliana

Cecília Emiliana é jornalista, feminista e, embora não pareça, otimista. Só não é deboísta. Converteu-se ao Tretismo recentemente e acha que só vai rolar de ficar “de boa” com tudo e com todos no dia em que… bem, um dia. Que ainda não é hoje.

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