Ele passou do meu limite

Na faculdade um amigo vivia se engraçando para mim. Eu não tinha o menor interesse, mas sempre o tratava com simpatia (ela é mais forte que eu). Eu fazia aulas sexta feira à noite e depois ia sozinha encontrar amigos que eu sabia que estavam em festas no campus. Já sabia que até encontrar alguém o melhor era andar de cabeça erguida, passo rápido, sem olhar pro lado e com cara de “nem vem” (esconder minha simpatia perigosa…) Então, encontrei o tal colega, meio bêbado. O cara partiu pra cima. Ficou naquela cena de ficar te cercando, põe o braço por aqui, te encurrala por ali, te impede de passar por ali, é simpático e agressivo ao mesmo tempo. E você fica ali sem saber se é hora de partir pra ignorância ou se dá para contornar. Afinal, ele é um colega… então, tive a infeliz ideia de beijá-lo para ver se me livrava daquela situação dando logo o que ele queria. Foi mais forte do que eu. Me senti compelida.

Acabou o beijo e eu estava arrasada. Puta da vida. Entendi que ele havia passado do meu limite. Me enfureci, saí fora e finalmente encontrei um grupo de amigos a meio metro da cena. Cheguei ali nervosa, tentando me recompor, com vergonha de ter dado o beijo e, dessa vez, me sentindo culpada mesmo. Se eu beijei, eu teria defesa??? O tal colega veio atrás, entrou no meio da roda e começou a me insultar: dizia que eu me achava melhor que todo mundo, que eu tinha ares de superioridade, que eu era esnobe. Meus amigos pediram para ele sair. Eu tremia, totalmente desconcertada. O via na faculdade e passava reto. Consegui, finalmente, superar minha simpatia doentia. Mas o sujeito ainda teve a cara de pau de levar um vaso de flores na faculdade como desculpa e entregar na frente de todo mundo. O que me deixou com mais ódio ainda.

Vinte anos depois o encontrei em um curso de filosofia. Ele ficou sem graça e eu fui magnânima (sim, adoro esnobar!!). A conversinha do imbecil era: vou aproveitar que tô sem a patroa pra tomar uma cervejinha. Nem vou te convidar porque seu marido não deve deixar… Babaca! Meu marido não deixa ou desdeixa nada. Meu marido e eu estamos MUITO longe desse tipo de relação. O desinfeliz me acompanhou até um táxi e abriu a porta para eu entrar, como bom machista que é. Minha sorte é que eu tenho a mim e o azar dele é que ele tem que se aturar pro resto da vida. Esse caso demorei muito para perder a vergonha de contar.

 

Marcia Padilha

Marcia Padilha Lotito fez graduação e mestrado em história na USP, é coordenadora de pós-graduação em educação inovadora da Faculdade Singularidades e coidealizadora do Laboratório de Experimentações Didáticas.

Autor Convidado

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4 comentários em “Ele passou do meu limite

  • 25 de novembro de 2015 a 18:21
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    Márcia, obrigado por compartilhar com a gente esse momento difícil. Acho que isso acaba incentivando outras mulheres a não se calarem frente ao assédio.

    Parabéns pela iniciativa!!

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    • 25 de novembro de 2015 a 23:19
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      Olá Roberta, esse movimento do #meuprimeiroassedio foi muito importante para muitas de nós e criou uma rede de solidariedade e de denúncia. Poucos dias antes de publicar o texto, eu contei essa historia para minha sobrinha de 15 anos, que tb reclamava de assedios desse tipo. E no meio de uma roda de familia com tios, pais, sobrinhos, avós e tudo. Foi tão bom ter podido colcar isso às claras e dizer: sim, é assim que acontece. E vai acontecer com essa nossa queridinha se a gente não abrir o jogo. Então, hoje me sinto realmente muito fortalecida e gostaria que essa minha historia ajudasse outras meninas a se sentirem assim. A atitude errada foi a dele e não a minha. Mas no dia foi muito constrangedor mesmo.

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