O Sal da Terra: um déjà vu

No ano passado fui ao cinema ver o filme O Sal da Terra, que retrata a história do famoso fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. Dirigido pelo alemão Wim Wenders e pelo brasileiro Juliano Salgado, foi indicado ao Oscar de melhor documentário em 2015. Eu já tinha tido contato com as fotos do artista em uma exposição em Belo Horizonte e fiquei fascinada com tanta diversidade e beleza em preto e branco. Porém, não conhecia nada da vida do fotógrafo e nem o que esperar de fato no filme.

O documentário nos conta algumas histórias de suas fotos famosas, além da sua vida e de como começou a carreira. Casou-se com Lélia Deluiz, com quem se mudou para a França para trabalhar com economia. Logo percebeu que a fotografia o fazia mais realizado do que a empresa onde trabalhava. Saiu pelo mundo, fotografou a fome no deserto de Sahel, os nativos da Papua-Nova Guiné, os movimentos migratórios na África, a mortalidade infantil no Nordeste. Algumas fotos são muito chocantes, nos mostram em belas imagens muito do sofrimento humano.

O documentário é como um déjà vu dos acontecimentos atuais. Outra volta neste ciclo da humanidade: crise migratória, destruição e recuperação da natureza, guerras sem fim.

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Uma parte de seu trabalho, chamada de Êxodos, lançada em 2000, retrata os movimentos migratórios e os campos de refugiados ao redor do mundo. Este projeto foi realizado ao longo de seis anos, nos quais ele visitou cerca de quarenta países, e resultou na publicação de um livro. E é impressionante a semelhança de algumas fotos com o contexto atual! Sebastião Salgado compartilha suas experiências: “Este livro [Êxodos] conta a história da humanidade em trânsito. É uma história perturbadora, pois poucas pessoas abandonam a terra natal por vontade própria. Em geral, elas se tornam migrantes, refugiadas ou exiladas constrangidas por forças que não têm como controlar, fugindo da pobreza, da repressão ou das guerras. […] Viajam sozinhas, com as famílias ou em grupos. Algumas sabem para onde estão indo, confiantes de que as espera uma vida melhor. Outras estão simplesmente em fuga, aliviadas por estarem vivas. Muitas não conseguirão chegar a lugar nenhum”. Em tempos de crise migratória na Europa, é interessante pensar em como a história ainda se repete.

Além disto, o filme retrata a tentativa da recuperação do Rio Doce, antes da catástrofe do rompimento da barragem em Mariana. Isto porque Sebastião nasceu em uma fazenda em Aimorés, por onde o rio passa. Todo verão ele brincava em suas margens e viu a fazenda do seu pai se transformar em uma região árida e quase sem vida, devido às práticas de desmatamento e pecuária. Quando retornou ao Brasil, após longas viagens fotografando, decidiu que deveria fazer algo para salvar as nascentes deste rio. E foi então que surgiu o Instituto Terra, fundado em abril de 1998 em parceira com sua esposa, dedicado ao desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce. Em pouco tempo, já conseguiram recuperar inúmeras nascentes, além de educar outros proprietários de terras para que façam o mesmo e preservem a Mata Atlântica. Infelizmente, este otimismo da recuperação, passado aos espectadores no final do filme, acabou sendo destruído mais uma vez após o mar de lama.

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(Foto: Ricardo Beliel, Instituto Terra)

O documentário é como um déjà vu dos acontecimentos atuais. Outra volta neste ciclo da humanidade: crise migratória, destruição e recuperação da natureza, guerras sem fim. Faltou, durante o filme, discutir um pouco o papel do fotógrafo no meio deste caos, a sua ética e responsabilidade social e como a fotografia poderia ajudar nestas situações tão extremas de pobreza e destruição. Mesmo assim, recomendo muito!

Mais sobre o assunto:

1. O Instituto Terra tem sido vítima na internet de críticas por ter demorado a se posicionar sobre o acidente. Leia o Comunicado sobre o Rio Doce, publicado no dia 13 de novembro de 2015.

2. O livro Êxodos, lançado pela Companhia das Letras, teve o patrocínio da PETROBRAS.

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3. Veja mais sobre o artista:

 

Marina Muniz

Marina Muniz

Formada em Matemática, mestre em Estatística e professora no ensino superior, trabalha o ano todo para juntar dinheiro para as suas viagens! Gosta de fazer intercâmbios, aprender outras línguas, experimentar comidas diferentes e conhecer pessoas de outros cantos do mundo. Também gosta de cachoeiras, trekkings, cinema, livros e música brasileira.

2 comentários em “O Sal da Terra: um déjà vu

  • 4 de dezembro de 2015 a 23:27
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    Infelizmente uma exposição de fotografias chocantes demonstram bem a nossa realidade…muitos olham, sentem, e no fim cada um segue para a sua casa apenas com a lembrança do que viu, poucos são os que tentam mudar a imagem da foto.
    Ótima recomendação!
    Excelente texto! Destaque para o último parágrafo.

    Responder
  • 4 de dezembro de 2015 a 23:33
    Permalink

    Infelizmente uma exposição de fotografias chocantes demonstra bem a nossa realidade…muitos olham, sentem, e no fim cada um segue para a sua casa apenas com a lembrança do que viu, poucos são os que tentam mudar a imagem da foto.
    Ótima recomendação!
    Excelente texto! Destaque para o último parágrafo.

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