A primavera não chegou ao bloco cirúrgico

Nessa primavera de reflexões sobre  gênero e feminilidade, apresento aqui as minhas impressões. Mas antes, peço desculpas pelo universo tão específico que uso de ambiente e, para me justificar, começo me apresentando.

Meu nome é Ana, tenho 26 anos, sou médica e residente de cirurgia geral. Mesmo com essa pouca idade, já sou uma “doutora, a senhora”. É com esse vocativo que atendo a pacientes e funcionários do hospital. Confesso que houve grande estranhamento e insisti muito para que não me chamassem assim. Cansei e desisti da luta quando percebi que o desconforto que esse chamamento me trazia era infinitamente menor que o incômodo do paciente se me chamasse de “você”.

Mas é claro que não é só a idade que causa estranhamento. Por incontáveis vezes, ouvi: “Você é quem vai me atender?! Eu achei que seria atendida pelo cirurgião.” Descontentes eles ficavam, afinal não passava pela mente deles que aquela jovem mulher seria, de fato, a cirurgiã a operá-los. Surpresa explicada: até 2009, no Brasil, sempre se graduavam mais homens que mulheres nos cursos de medicina. De lá para cá, o predomínio feminino tem sido constante e em ascensão. Apesar disso, as mulheres ainda são grande minoria em especialidades cirúrgicas, sendo maioria apenas nas especialidades básicas tidas como menos exaustivas, mais tranquilas e, coincidentemente, pior remuneradas, entre elas: pediatria, medicina de família e comunidade, medicina preventiva.

Eu garanto que o fato de sermos poucas mulheres cirurgiãs não passa pelo desinteresse do feminino pelo que tange o sofrimento agudo, pelo doente gravemente enfermo que demanda atitude rápida e precisa, pela inabilidade de firmeza, precisão e delicadeza necessários em cirurgias. Trago dois exemplos recentes:

1. Uma jovem acadêmica de medicina, cheia de sonhos e vontades, chegou em casa e disse ao irmão mais velho que queria ser cirurgiã. Ele, cardiologista, prontamente aconselhou: “Não faça isso! Cirurgia é coisa para homem, ou você nunca percebeu que só tem homem cirurgião? As mulheres que têm são todas brutas, mulher-macho. Se você quiser casar e ter filhos, é melhor pensar em outra especialidade”. Ela retrucou com o exemplo de uma residente, no caso eu, que não preenchia aqueles adjetivos. Mas, ainda assim, o sonho morreu. Será pediatra.

2. Durante uma cirurgia, uma acadêmica me disse: “Gostei tanto de te ver operar. Sempre quis ser cirurgiã, mas achava que não era possível ser mulher, cirurgiã, feminina e feliz ao mesmo tempo. Mas ainda não me decidi, porque tenho muito medo. Todos falam que não é carreira para mulher”. Prontamente disse: pois será minha missão: mostrar a você como tudo isso é possível, para que você faça as suas escolhas sem esse medo.

Pronto! Em pleno 2015, é isso que se vê! Centenas de mulheres bem esclarecidas que ainda escolhem a profissão pelo preconceito e medo de serem taxadas como menos mulheres. É a regra de gênero e a imposição do que é ser feminina fazendo mal, mais uma vez, a toda sociedade. As mulheres perdem não realizando seus sonhos e suas vocações. A cirurgia clama por mais isonomia de gênero na especialidade, mas ainda poucas escutam o chamado. Sei que minha caminhada de me afirmar como cirurgiã será longa e sinto um apelo por me fazer exemplo. Exemplo de que é possível ser médica, cirurgiã e feliz. Mulheres e homens podem ser o que quiserem, basta sentirem o coração batendo mais forte na execução de suas ocupações. Essas escolhas são individuais e o indivíduo é muito mais complexo do que a simples separação das pessoas em gêneros, macho e fêmea. Aguardo o dia em que estas questões tenham menos importância. Enquanto isso, vamos à luta!

Ana Cecília Borges

Médica graduada na UFMG e residente do segundo ano de Cirurgia Geral na Santa Casa de Montes Claros. Almeja ser Cirurgiã do Aparelho Digestivo e tem interesse particular por metabolismo, nutrição e psicologia.

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12 comentários em “A primavera não chegou ao bloco cirúrgico

  • 19 de novembro de 2015 a 11:52
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    Parabéns e obrigada pela luta!
    Precisamos de mulheres como você para que um dia todas sejam assim, para que todas sejam quem quiser!

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    • Autor Convidado
      20 de novembro de 2015 a 14:32
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      A luta é perene. Na minha e em várias outras profissões! Imagine as engenheiras nos canteiros de obras, as advogadas penalistas nas visitas aos presídios, as policiais nas corporações…
      Uma luta diária para provar para os outros que é competente e eficaz, como qualquer Homem, como qualquer ser humano.
      Não é fácil! Mas tenho certeza que estamos no caminho certo das conquistas!

      A você, Débora, meu sincero agradecimento! Se não fosse sua “pilha”, sei que não teria escrito nada!
      Obrigada pelos melhores “empurrõezinhos”.

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  • 19 de novembro de 2015 a 17:57
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    Aninha, passo pela mesma situação. Optei pela cirurgia e desde então me falam que deveria escolher uma especialidade mais “calma” por ser mulher.
    Concordo com vc e estou seguindo meu sonho.

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    • Autor Convidado
      20 de novembro de 2015 a 14:16
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      Ei Ana, que surpresa boa saber que você também fez essa escolha!

      Sempre tem essa opinião ai de que mulher tem que ter uma vida mais calma. Eu penso que quem vai ditar meus horários, sou eu. Entendo a residência como uma fase e que faz parte dela essa dedicação máxima. Entretanto, se for da minha vontade, eu posso ter uma vida mais tranquila, com menos plantões e outras formas envolvimento.

      Daí meu ponto de vista: essa escolha é do indivíduo! Seja homem ou mulher, a escolha por 4 plantões por semana ou apenas um e outros trabalhos é INDIVIDUAL!
      Sejamos livres para fazer nossas escolhas e nossos horários!
      Um beijo!

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  • 20 de novembro de 2015 a 11:47
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    Cara Ana Cecília, você não me conhece, mas eu gostaria que soubesse que o seu texto foi de extrema importância na minha vida! Não quero medicina, mas sofro pressão da minha família de médicos pra seguir a mesma carreira da família. Na verdade até a área da medicina já traçaram pra mim: pediatria. Dizem que sou boa com crianças. Porém, o que eu gosto mesmo é história. Queria ser professora! Você pode imaginar o que é querer ser professora numa família de médicos? Mas após a leitura do seu texto e uns comentários do professor Joaci, tomei coragem pra ir fazer o que realmente gosto! Parabéns! E obrigada!

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    • Autor Convidado
      20 de novembro de 2015 a 12:58
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      Querida Camila, fico extremamente feliz e emocionada com a sua decisão. Conhecer a si mesmo e respeitar os próprios desejos estão entre as tarefas mais importantes que temos na vida. Entendo que só assim temos chance de ser feliz!

      Agradeço a você por esse retorno! Quem escreve não sabe, não imagina o que as próprias palavras produzem na mente de quem lê. Sua resposta me deixou admirada! Uma reação muito linda e que eu não esperava!
      Muito obrigada! O mundo também agradece por você decidir ser o que quer!
      Seja muito feliz!

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  • 24 de novembro de 2015 a 20:02
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    Eu convive durante um tempo em situação parecida. Quando fiz estágio em obras (construção civil) junto a uma amiga era só dá uma sugestão e os funcionários (muitos deles) respondiam “Quantos anos você tem mesmo?” “Há quanto tempo trabalha aqui?”. Já até chegamos a ouvir coisa do tipo “No meu tempo lugar de mulher não era na obra, o mundo está de cabeça para baixo mesmo” . Quando converso com meus pais a impressão que fica é que era assim mesmo na época deles, mas se passaram 50 anos e não mudou muita coisa, ou pelo menos, não mudou o bastante.

    Parabéns pelo texto, apesar de um exemplo particular, mostra como tem sido difícil aceitar a escolha do outro, em um âmbito onde não se deveria nem se quer colocar em discussão a questão da aceitação.

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  • 1 de dezembro de 2016 a 01:18
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    percebi algo engraçado e bem assustador: quando eu conto que pretendo fazer cirurgia para alguma mulher, a maioria tenta me convencer com esses argumentos cliches de desistir! muitas vezes escuto ate de médicas e preceptoras! se nós não nos damos apoio, quem dará?

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