Doenças negligenciadas e o capital

Ao tratar de temas como as doenças negligenciadas necessariamente esbarramos com questionamentos acerca da desigualdade social. A preocupação assimétrica com a qual as pesquisas são desenvolvidas no mundo é apenas mais uma das grandes facetas da lógica fria em que o capitalismo se faz presente. Ou seja, o desenvolvimento de propriedade intelectual e patentes é condicionado ao risco a que as populações dos países mais dinâmicos do globo estão submetidas ao acometimento de uma doença.

No entanto, vale destacar duas iniciativas chinesas que foram na contramão do panorama supracitado. A primeira, se refere ao primeiro prêmio Nobel conquistado por uma chinesa. Desde o regime do grande líder da Revolução Chinesa (1949), Mao Tsé Tung, as pesquisas envolvendo a Malária ganharam corpo e se transformaram, atualmente, em um dos principais tratamentos no combate ao parasita da doença. Outra iniciativa, envolvendo o surto recente de Ebola no continente africano, está em uma proposta partindo de uma empresa privada de biotecnologia da China, que pretende criar meios possíveis para o desenvolvimento de vacinas que seriam distribuídas em larga escala nos países afetados.

O mais recente surto de espraiamento dos casos de ebola ocorreu na África Ocidental. Países como Guiné, Serra Leoa e Libéria foram amplamente abalados.

Várias preocupações foram levadas em consideração, como, a capacidade do Ebola de atingir alguns adensamentos urbanos, locais com um contingente demográfico muito grande. Isso determina a maior proximidade de grandes aeroportos (hubs) que possuem conexão global.Outro importante aspecto a ser analisado são os motivadores desse surto, que basicamente são causados pela irrupção de problemas socioeconômicos e a busca pelo consumo das ”carnes da savana” (bushmeats), que correspondem a carnes de animais não domesticados, incluindo morcegos, ratos, macacos, gorilas, ou qualquer outro tipo de animal encontrado morto, ou não, nos entornos das cidades. A origem da corrida por esse fonte de proteína vem da fragilidade das instituições políticas no continente africano, determinando graves mazelas sociais para suas populações. Além disso, é devido adicionarmos o desmatamento e incorporação de novas áreas agrícolas para atender demandas externas como uma das causas atuais da concentração de capitais (miséria) da população. A China participa ativamente nesse contexto, pois promove uma verdadeira espoliação de terras para ampliar sua capacidade produtiva. Isso ocorre a partir da compra de espaços agrícolas, minerais, energéticos, etc.. A dificuldade em combater as pandemias e os possíveis novos surtos a partir do surgimento de novas cepas virais revela uma falha na resposta da comunidade internacional. As mobilizações orçamentárias para a abafamento desses problemas são mínimas, seja no Brasil ou no mundo, ações combativas devem ser colocadas como prioritárias na agenda política.

Entretanto, sabemos que na prática não é isso que acontece. E a cobrança deve partir de quem? Da população. Mas o que esperar quando o fechamento de programas como a “Farmácia Popular” gera menos impacto na sociedade que uma fala desconexa e descontextualizada sobre “estoque de ventos”?

O Ebola e a carne de macaco.

De última hora

Na noite desta terça-feira (10), um homem de 46 anos vindo da Guiné deu entrada em uma Unidade de Pronto Atendimento de Belo Horizonte com sintomas de Ebola. Leia +

Referências e textos legais
  1. Ebola e Ecologia – Science Blogs;
  2. Ebola: sintoma da globalização e apartheid – Outras Palavras;
  3. Ebola ou a falência moral do capitalismo – Outras Palavras;
  4. Chinesa sem diploma médico acha a cura da malária e ganha Nobel de Medicina – Catraca Livre;
  5. The nobel winning malaria drug wont work for much longer (em inglês)
Vitor Augusto

Vitor Augusto

Professor de Geografia! Minha área de atuação é preferencialmente em pré-vestibulares. Gosto do desafio e da pressão diária de lidar com jovens ansiosos por um vestibular! Haja pressão! Muito feliz por poder expandir os horizontes da sala de aula no SQS e Terra Negra, dois ambientes que me fascinam, cada um com sua peculiaridade!

10 comentários em “Doenças negligenciadas e o capital

  • 12 de novembro de 2015 a 14:52
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    Professor, como o senhor acha que poderia ser resolvido esse problema dessas doenças já que muitos países não tem dinheiro para investir em grandes pesquisas?

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    • Vitor Augusto
      12 de novembro de 2015 a 16:13
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      Renato, vejo com bons olhos as iniciativas como a chinesa que ressaltei no texto. Acredito que esforços da comunidade internacional, realizados em conjunto, podem surtir efeito. Utópico? Um pouco. Mas não perco as esperanças quando vejo casos pontuais de estadunidenses ajudando em surtos recentes no continente africano. O problema que vejo é a escala desses auxílios, ainda não atendem às demandas.

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  • 12 de novembro de 2015 a 16:55
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    Ótimo texto, professor! Gostei muito! E parabéns pelo site!
    Tenho uma pergunta. Você acha que devemos deixar a área de saúde apenas sob controle do estado? Afinal, esse problema acontece pois deixamos o desenvolvimento de vacinas nas mãos das empresas, não é mesmo? E aí é claro que elas vão querer pesquisar a cura de doenças cujos doentes podem arcar com os custos, certo? Qual o melhor modelo?

    Abraços

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    • Vitor Augusto
      13 de novembro de 2015 a 15:16
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      Olá Carlos, obrigado pelo comentário.
      Acredito muito na parceria entre o Estado e a iniciativa privada. No Brasil, a formulação de PPP`s ainda é muito tímida.
      A mesma coisa vale para a Educação.
      Dada a condição demográfica brasileira, por termos o quinto maior contingente populacional do mundo, o Estado absorver todas essas responsabilidades, é praticamente um tiro no pé.

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  • 12 de novembro de 2015 a 18:09
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    Fla Vitin, achei bacana o post. Parabéns!

    Nao precisa ir longe não. O que se faz em BH e no resto do Brasil para previnir e reduzir a incidencia de doenças infecciosas (lepstospirose,aids, leismaniose, etc,) que ainda nao incomodam a elite. Agora, vai ver o capital mobilizado , nas pesquisas de AVC, Auzheimer e entre outras.
    Em contrapartida, investimentos em doenças negligenciadas só serão realizados se houver perda econômica por parte das potências mundiais. As coisas pelo bem ou pelo mal giram em função da parte financeira…….Ou voce acha que a escravidão foi abolida somente por questões sociais?
    abraço!

    obs: Estamos esperando um post sobre a mineração em Minas (até pela a tragedia), mas uma visão mais ampla, tipo: ” A colônia ta viva e mais forte do que nunca”. ahhahehae FLOU!

    12/11/2015

    MATHEUS

    Responder
    • Vitor Augusto
      13 de novembro de 2015 a 15:07
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      Excelente Matheus!! Obrigado pelo comentário, foi muito importante mesmo.
      Concordo contigo em todas as suas pontuações meu caro.
      Sobre o post da mineração, escreverei esse final de semana. Gostei da sua proposta, tenho pensado justamente em escrever algo com um perfil diferente mesmo. Passando por questões técnicas, mas extrapolando-as. (até gastei uma ênclise, rsrsrs)
      Abração!
      😉

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  • 19 de novembro de 2015 a 21:28
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    Vitimm sempre gosto de ler o conteudo postado por vcs!mesmo ja tendo passado essa fase do vestibular, os assuntos sao bem atuais e eh sempre bom manter informada ne!otimo trabalhooo!saudadee de vc!qlqer dia vo da um pulo pra te visitar

    Responder
    • Vitor Augusto
      19 de novembro de 2015 a 22:07
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      Ei Marina, eu fico muito lisonjeado mesmo pelo seu comentário. Grato por poder contribuir com a continuidade dos seus estudos sobre atualidades. Que se perpetuem né?! =D
      Aguardo a visita!!

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  • 26 de dezembro de 2015 a 07:41
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    1- Os países se envolveram com o surto de Ebola na África apenas para evitar uma epidemia global. Sem essa de capital bom samaritano, nem da China e nem de ninguém.
    2- Doenças negligenciadas são aquelas que afetam, na maioria das vezes, grupos de pessoas sem voz e quase sempre sem vez dentro do capitalismo, os “invisíveis” do sistema!
    3- Finalmente, colocação desconexa e descontextualizada foi este final do texto. Meldels, que que é isso?!??

    Referências:
    https://agencia.fiocruz.br/doen%C3%A7as-negligenciadas
    http://www.scielo.br/pdf/rsp/v44n1/23.pdf
    http://www.abc.org.br/IMG/pdf/doc-199.pdf
    http://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=category&id=950&layout=blog&Itemid=810

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    • Vitor Augusto
      28 de dezembro de 2015 a 17:27
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      Olá Carlos, obrigado pelo comentário.
      1- Em nenhum momento evidenciei boas intenções por parte dos países centrais. Entretanto, é irrefutável os pontos colocados no texto pois são factuais, não opinativos.
      2- Reitero, em qual momento do texto eu trabalhei com a noção diferente da pontuada por você sobre o que seriam as “doenças negligenciadas”?
      3- Desconexa e descontextualizada foram justamente os termos utilizados por mim em uma tentativa de criticar a relação entre a relevância política e social de alguns fatos recentes na mídia brasileira, e a repercussão descabida de algumas falas recentes da presidente da república. Pelo que pude perceber, algumas pessoas entenderam bem o final do meu texto. Outras, por sua vez, tiveram dificuldades. Agradeço o seu comentário, por não ter sido claro em minha fala, você me fez crescer como escritor.
      Obrigado.

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