Da possibilidade de ser o que não é

Está registrado nos volumes da história universal: o francês Philippe Petit, em 7 de agosto de 1974, caminhou sobre um cabo de aço que unia as duas torres do World Trade Center. A travessia foi realizada a 420 metros do chão de maneira totalmente ilegal e sem o uso de um cinto de segurança. Se assim contei é porque assim está documentado: não aumentei, não floreei; pelo contrário, economizei. Deixei de contar que àquela época os dois prédios estavam inacabados, que Philippe Petit era um jovem malabarista e equilibrista que se apresentava nas ruas de Paris, que a caminhada de 43 metros durou aproximadamente 45 minutos e que,  para a travessia, Philippe utilizou apenas uma vara de contrapeso que pesava 25 quilos.

A incrível caminhada de Petit deixa agora as páginas dos livros – não é a primeira vez [1] – e ganha as telas do cinema em A travessia. Não se aborreça comigo, leitor, ao descobrir que o filme já foi quase todo contado no parágrafo anterior. O jovem equilibrista conseguiu realizar a travessia: não caiu, não machucou, não foi resgatado por helicópteros. Não há motivos para aborrecimentos porque, assim como em algumas situações da vida, as descobertas e os momentos mais interessantes não se darão no início ou no fim da estrada, mas durante a caminhada.  Petit foi a única pessoa até hoje a andar por um cabo estendido entre as duas torres – início e fim da estrada -, mas você, leitor, continua sem saber dos detalhes e do que aconteceu durante a travessia. Isto eu não te contei e nem vou contar.

O filme gasta mais ou menos uma hora e quarenta minutos para contar toda a história de Petit – sua infância, seu interesse pelo circo na adolescência, a ideia de atravessar as torres gêmeas e o planejamento da travessia. É tudo tão bem contado e os personagens são tão interessantes que o fato de sabermos o final do filme – as primeiras cenas já irão te falar que tudo acabará bem – não diminuiu em nenhum instante a minha tensão por não saber o que aconteceria durante a travessia. E foi então que, após uma hora e quarenta de filme, a sala de cinema foi tomada por um momento mágico. Assim que Petit levantou uma de suas pernas para dar o primeiro passo sobre o cabo de aço, o cinema mergulhou-se em um profundo silêncio. O barulho dos refrigerantes e das pipocas desapareceu. A senhora que estava do meu lado direito levou seus braços aos braços do seu marido e disse baixinho ‘ai meu deus’; o rapaz da fileira da frente se ajeitou na cadeira e estalou ombros e pescoço; um homem bem mais a frente levou as mãos à cabeça; muitas outras pessoas se ajeitaram em suas poltronas; o meu amigo que estava do meu lado esquerdo começou a respirar mais forte. Dentro do silêncio e da escuridão, todo mundo que estava ali se preparava não para ver a travessia, mas para também caminhar sobre aquele cabo de aço que estava a 420 metros do chão.

A nossa travessia durou aproximadamente 25 minutos e o que aconteceu lá em cima não ouso contar aqui. Reservo-me apenas a dizer que foi tudo muito bonito: os pássaros, a neblina, as pessoas pequeninas que estavam nos vendo lá de baixo, o silêncio, o frio na barriga, a solidão. Já faz um mês que eu fui ao cinema ver o filme, mas toda a beleza que vi lá de cima do World Trade Center ainda continua viva em minha memória.  A Travessia me possibilitou sentir o que eu ainda não tinha sentido em minha vida, me deu a chance der ser – por vinte e cinco minutos – o que eu não sou.

Leitura complementar:

  1. Em 2008, a travessia de Philippe Petit foi contada no documentário O Equilibrista. O filme ganhou o Oscar de melhor documentário em 2009.
  2. Um outro olhar já foi lançado sobre A Travessia aqui no Só Que Sim. Em seu texto, Pedro Daldegan conta um pouquinho da história do filme e também aproveita para falar de sua relação com o cinema.
  3. A imagem em destaque deste post pertence ao usuário Galaxy fm do Flickr.
  4. A imagem no cabeçalho deste post pertence ao usuário Benjamin Thompson do Flickr.
Pedro Franklin

Pedro Franklin

Aos cinco anos resolveu que seria veterinário, mas abandonou esta ideia aos oito. Depois, aos dez, achava ballet a coisa mais bonita do mundo, mas acabou matriculado em uma escolinha de futebol e se tornou um bom goleiro. Aos 14 contou para todo mundo que seria zoólogo e, aos 15, cineasta. Por fim, apaixonou-se pela matemática aos 18 e, anos depois, se tornou mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é doutorando em estatística também pela UFMG, mas ainda não sabe o que fazer da vida. Em um mar de incertezas, possui uma uma grande certeza: sua paixão por gastronomia, cinema e literatura.

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