A Travessia

Imagine estar sobre um fio, suspenso a mais de 400 metros do solo. Você e sua travessia. Imagine a instabilidade, sinta a corda sustentando o seu corpo, sinta o vento e o frio. Olhe então para baixo e deixe o medo invadir, lentamente, cada fibra do seu corpo. Sinta a possível queda.

Agora imagine poder sentir tudo isso, acompanhado de algumas dezenas de pessoas, dentro de uma sala de cinema. Pois foi exatamente o que se passou comigo, e provavelmente com essas pessoas, ao assistir A Travessia. O fio sobre o qual o personagem principal caminha se estendeu até nós, até nossa intimidade, até nossa poltrona. E se lá o personagem cai, e se lá o equilibrista treme, caímos e trememos também nós. Tais percepções me fizeram refletir sobre como funciona minha relação com filmes, em geral.

O cinema me presenteou com sensações dentre as mais incríveis que já senti. Quantas vezes me senti nu, exposto, protegido somente pela volátil escuridão da sala. E é estranho alguém que sequer conheço ser capaz de provocar isso. No espaço da poltrona meus olhos miraram outras realidades, outras culturas, outras línguas. E o que era estranho se tornou normal, e o que era impossível, se tornou o próximo passo. E foi incrível quando percebi que, por mais diferentes que sejam as pessoas, por mais distantes que estejam de nós, de alguma maneira “sentimos parecido”, vibramos por coisas semelhantes, e sempre é possível encontrar alguém que se emociona no mesmo instante que nós. Essa possibilidade de empatia e de escapar do nosso cotidiano é que fazem do cinema uma arte tão especial para mim.

Desejo imensamente que vocês possam algum dia sentir esse encantamento, caso ainda não compartilhem disso, e que tal experiência transforme vocês em pessoas mais humanas, mais cientes do outro, de suas dificuldades, e que seja uma porta para vivenciar outras ideias. E que possamos juntos dialogar, e também vibrar sobre o mesmo fio que conduz alguns sentimentos. Até a próxima sessão.

Pedro Daldegan

Pedro Daldegan

Mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é aluno de doutorado na mesma instituição, com ênfase em álgebra. Quando não está no cinema ou matematicando, é leitor, cozinheiro e poeta. Há boatos de que também desenha, mas só temos conhecimento dos seus deformados bonecos de palitinho.

10 comentários em “A Travessia

  • 3 de novembro de 2015 a 10:54
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    Já quero ver o filme. E concordo demais com você. O cinema desperta o que há de universal em nós, e isso é lindo demais. Parabéns pela iniciativa, Pedro. Já virei fã do blog!

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    • Pedro Daldegan
      4 de novembro de 2015 a 22:46
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      Fiquei muito feliz por vê-la aqui e pessoalmente. Ainda mais por saber que o texto te levará ao cinema. Obrigado pelo carinho, Mari 😉

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  • 3 de novembro de 2015 a 12:31
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    Depois dessas inspiradoras palavras, serei levada a assistir o filme. Aliás, demorou você aparecer aqui em Divicity para nos fazer uma visitinha, e quem sabe debater sobre esse filme?! Estou adorando o blog, sucesso meu amigo!!

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    • Pedro Daldegan
      4 de novembro de 2015 a 22:53
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      Oi Miii. Que bom que você gostou. O filme realmente me deixou muito inspirado, super indico! Uma pena o cinema daí ter oferecido somente a cópia dublada, pois perde-se muito. Quanto à visita, ultimamente minhas idas para Divis têm sido tão corridas… mas as férias estão aí para resolver isso ^^

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      • 10 de dezembro de 2015 a 11:51
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        EBA!!!! Quero só ver se vc vai vir nas férias mesmo, se bem que estou com planos de ir morar aí em BH … Já pensou eu te azucrinando aí??? Kkkkkkkkkkk bjo

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    • Pedro Daldegan
      4 de novembro de 2015 a 22:53
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      Me convida para ir junto!! 😉

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    • Pedro Daldegan
      9 de novembro de 2015 a 22:12
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      Obrigado, Dafne. Seja super bem vinda! 🙂

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