Eu, Pedro F., 5 anos: da leitura ao crime

Eu tinha 5 anos quando fui para a escola pela primeira vez. Ao contrário do comportamento geral das outras crianças, não chorei, não fiz pirraça, não deitei no chão para sacudir as pernas e gritar. Na primeira aula, a professora pediu que deitássemos com pernas e braços abertos em cima de uma grande cartolina. Com um giz de cera ela contornou o corpo de cada um de seus novos alunos, tarefa semelhante àquela que a polícia faz com giz, na cena de um crime, ao delimitar o corpo de alguma vítima. Depois de nos contornar, cada corpo de papel foi recortado e tintas foram distribuídas para que pudéssemos pintar, a golpes de pincel, a boca, as unhas, o nariz e os olhos. A bagunça, muito parecida com a retratada em propagandas de sabão em pó, estava instaurada. Se minha mãe ficou assustada ao me ver todo sujo depois daquela primeira aula, não me lembro. Voltei para casa absolutamente lambuzado de tinta, mas sorridente. Eu já estava ansioso para o próximo dia de aula.

A escolinha se mostrou um lugar muito legal. Tinha o dia de brincar no jardim, o dia de levar brinquedo, o dia da bandinha de música, o dia de ver filmes. Uma vez por semana, precisamente e somente às sextas-feiras, podíamos visitar a biblioteca e escolher um livro para levar para casa. Mamãe sempre lia para mim, no fim de semana, o livro que eu escolhia. Quando o livro não possuía texto, nós brincávamos de inventar uma história para todas aquelas gravuras. Nascia aí o meu primeiro contato com a leitura. O ato de ver minha mãe tão pacientemente com sua voz doce decifrando aquele código estranho existente nas páginas dos livros despertou em mim a vontade de também decifrá-lo. O código estranho não aparecia somente nos livros, também estava presente no letreiro do ônibus, na camisa de futebol do meu pai, nas fachadas das mercearias, no tubinho do meu Tandy tutti frutti: estava onipresente no mundo. E eu queria aprender a ler o mundo.

Como minha mãe às vezes não conseguia chegar na hora certa para me buscar após as aulas, eu gostava de esperá-la na biblioteca na companhia dos livros [!] e da bibliotecária, Dona Clesi, uma senhora muito alta, magra, de cabelos curtos e marrons, de mãos ossudas e veias verdes. Rapidamente Dona Clesi e eu nos tornamos amigos e, após algumas insistências de minha parte, ela cedeu: independente do dia da semana, eu passei a ter autorização para levar para casa qualquer livro da biblioteca: temos aqui o primeiro caso de corrupção ativa da minha vida. Uma criança de 5 anos que só podia pegar livros em um dia da semana passou a ter acesso irrestrito à biblioteca para pegar qualquer livro do acervo e devolver quando quisesse. Passei a gostar tanto de Clesi que cheguei a pegar escondido um anel de minha mãe para dar a ela de presente. Ainda tive o cuidado de colocar o anel dentro de uma caixinha de fósforos e embrulhá-lo com papel de revista. O anel foi pego sem a permissão de minha mãe: temos aqui um breve relato do primeiro roubo que cometi em minha vida. Em resumo: foi o meu interesse pela leitura que me levou a participar de um tipo de corrupção e a roubar pela primeira vez.

Só percebi anos mais tarde que a brincadeira de inventar uma história para as gravuras também era um tipo de leitura. Não se lê apenas textos. Lê-se textos, gravuras, filmes, pessoas. Estamos o tempo todo, muitas vezes sem perceber, lendo o mundo ao nosso redor. E foi assim que minha mãe me educou: lendo meus erros e os corrigindo, me ensinando que não se podia roubar, mentir ou machucar o coleguinha. Já adolescente, através dos jornais, das revistas e dos livros de história, percebi que determinados crimes, como a corrupção, podem afetar significativamente a vida de milhões de pessoas. Se foi a leitura que indiretamente abriu as portas da corrupção e do roubo em minha vida, também foi a própria leitura que diretamente tratou de fechar estas portas. Claro que a leitura abriu muitas outras portas que ainda permanecem abertas, mas vamos deixar para falar sobre estas coisas – coisas boas! – nos próximos textos. Espero que possamos nos encontrar mais vezes por aqui.^^

Eu, Pedro F., 26 anos: leitor fora do crime.

Pedro Franklin

Pedro Franklin

Aos cinco anos resolveu que seria veterinário, mas abandonou esta ideia aos oito. Depois, aos dez, achava ballet a coisa mais bonita do mundo, mas acabou matriculado em uma escolinha de futebol e se tornou um bom goleiro. Aos 14 contou para todo mundo que seria zoólogo e, aos 15, cineasta. Por fim, apaixonou-se pela matemática aos 18 e, anos depois, se tornou mestre em matemática pela UFMG. Atualmente é doutorando em estatística também pela UFMG, mas ainda não sabe o que fazer da vida. Em um mar de incertezas, possui uma uma grande certeza: sua paixão por gastronomia, cinema e literatura.

14 comentários em “Eu, Pedro F., 5 anos: da leitura ao crime

  • 3 de novembro de 2015 a 10:52
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    Leitor e também criador! Viajei junto de suas memórias e resgatei as minhas, Lindo texto, meu amigo. Obrigada =)

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    • Pedro Franklin
      4 de novembro de 2015 a 12:32
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      Obrigado, Mari. Fiquei bastante feliz em saber que o texto foi um gatilho para você resgatar suas memórias. Abraços.

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    • Pedro Franklin
      4 de novembro de 2015 a 12:33
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      Obrigado, Lilian^^

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    • 3 de novembro de 2015 a 23:04
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      Parabéns Pedro, excelente texto.

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      • Pedro Franklin
        4 de novembro de 2015 a 12:35
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        Obrigado, Moacir!

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    • Pedro Franklin
      4 de novembro de 2015 a 12:34
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      Muito obrigado, Flaviana. Espero que goste do blog. Abração.

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  • 4 de novembro de 2015 a 00:54
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    Fico feliz que o autor tenha se reabilitado e largado o mundo do crime, pois o crime não comepensa.

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    • Pedro Franklin
      4 de novembro de 2015 a 12:36
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      Obrigado pelo comentário, Oswaldo!

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  • 4 de novembro de 2015 a 12:48
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    Pedro, muito bom! Mas tenho algo a acrescentar:
    “E foi assim que minha mãe me educou: lendo meus erros e os corrigindo, me ensinando que não se podia roubar, mentir ou machucar o coleguinha.” E o MGTV te ensinou a não atravessar avenidas movimentadas fora da faixa.

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    • Pedro Franklin
      10 de novembro de 2015 a 02:52
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      Sávio, obrigado pela visita! Mas tenho algo a acrescentar:
      “E o MGTV te ensinou a não atravessar avenidas movimentadas fora da faixa.” Fui exposto de maneira errada pelo MGTV. Àquela época, a avenida estava em obras e não havia faixa de pedestre! A denúncia deveria ser a imprudência da prefeitura. Hehehe. Abração, Sávio.

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  • 28 de janeiro de 2016 a 00:01
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    Eh Pedro… poesia eh uma linguagem e vc a tem. Me lembrei de tantas coisas… meu pai nâo eh um leitor propriamente dito mas se esforçou para que eu tivesse o hábito. Antes de ter um berço eu já tinha uma coleção de livros infantis, acredita? E até hj chegando em Brasília ele me leva à livraria favorita com paciência.
    E o meu primeiro dia de aula? Virou um VHS que rendeu mt alegria lá em casa… eu não queria ir embora e a tia Alceni me fez uma sacolinha com canetinhas para o meu primeiro dever de casa… quanto carinho!

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