Algumas verdades sobre a universidade que não te contaram

Ela não ensina nada. Porque aprender não é decorar texto nem saber técnica. Ninguém precisa prestar ENEM ou vestibular e passar pelo menos quatro anos na faculdade pra repetir o que tá em qualquer documentário, aula ou tutorial no Youtube. De graça, mais rápido e sem a gente sair de casa. E com você controlando o pause.

Ensino superior é pra pensar, o que é beeem mais difícil e complexo do que apenas aprender uma informação ou técnica que amanhã tá velha. Qualquer ensino é pra pensar, claro. Mas já que você chegou na universidade, com certeza passou por um fundamental que até foi divertido no começo e depois virou um saco. O ensino médio foi a mesma coisa, mas a gente tá mais velho e se enche mais depressa. A escola fez tudo pra você não pensar, e foi bastante ajudada pelo Facebook, o Instagram, o Jornal Nacional e a Britney Spears (vem cá: a letra de “Oops!… I Did It Again” é bobinha que dói, hein?!).

Aí, chega na universidade e um tiosão, numas aulas mais chatas ainda, te enche de livros e artigos científicos e quer que você leia e escreva de um jeito que ninguém te ensinou. Ou, se ensinaram, você não aprendeu. Ou aprendeu pra passar de ano e esqueceu assim que entregou a prova porque você tava louco pra passar de ano e começar logo as férias. Bom, aí já viu, né? Fazer o quê? Decoreba mesmo! Ou então cola, de boa… Rola até pagar alguém pra fazer o trabalho porque, foda-se!, o que importa é a porra do diploma mesmo. Lá fora a gente se vira.

Sim, a universidade tem culpa nisso. E muita! Porque ela também não te entende. Até tenta. Mas tem errado, viu? Porque, entre outros erros, ela tá pensando que nem você: acha que o que manda é o tal do mercado de trabalho – esse mesmo que logo vai te descartar porque o que a faculdade te passou já é passado. Cara, má notícia: até uns cinquenta anos atrás, mais ou menos nos tempos dos dinossauros, a universidade preparava pra vida – e não só pro emprego.

Dá pra ser diferente? Dá, se você quiser. É difícil? Putz, difícil pra caralho! Mas se você entrou neste blog e chegou até o final deste post, já é um começo… A gente vai se falando por aqui. Valeu!

Informação complementar

1. Para ver outros textos do professor Joaci sobre o ensino superior, bem como de outros autores do SQS, basta ir na aba “No intervalo”.

Joaci Pereira Furtado

Joaci Pereira Furtado

Graduado em história pela Universidade Federal de Ouro Preto, é mestre e doutor em história social pela USP. Foi editor de literatura e em ensaio da Globo Livros e criador dos selos de literatura Tordesilhas e Tordesilhinhas. Hoje é professor dos cursos de arquivologia e biblioteconomia da Universidade Federal Fluminense. É autor de Uma república de leitores (Hucitec) e organizou edição das Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga (Companhia das Letras).

32 comentários em “Algumas verdades sobre a universidade que não te contaram

  • 17 de novembro de 2015 a 17:29
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    Professor, ótimo texto e parabéns pelo site! Gostei muito!

    Qual seria a universidade dos sonhos? Ou próxima disso, segundo a visão do senhor?

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    • Joaci Pereira Furtado
      19 de novembro de 2015 a 13:04
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      Oi, Priscila! Obrigado por seu comentário. Não acho que a universidade, sobretudo a pública, deva voltar ao que ela foi. Nada de saudosismo. Há, porém, princípios dos quais ela não pode abdicar, independentemente da conjuntura. Ampliar os horizontes de quem ingressa nela, por exemplo. É inconcebível uma universidade de onde, sob todos os aspectos, as pessoas saem do mesmo jeito que entraram. É preciso haver vida universitária além da sala de aula, do laboratório ou da biblioteca (cada vez mais vazia, aliás). E sobretudo resgatar o espaço da aula como lugar para pensar, refletir, discutir, debater, dialogar. A aula como lugar de criação e vivência humana, entende? E não de informação, porque esta é acessível, hoje, de maneira muito mais rápida e interessante, por meio dos suportes eletrônicos e digitais. Nada, porém, substitui a experiência humana, o contato entre pessoas, o expor-se à contradição e ao imprevisto, como é ou deveria ser a sala de aula. Algo como o que se vê no vídeo que lhe passarei em seguida. É certo que ele se refere ao ensino fundamental e médio, basicamente. Mas por que não poderia ser assim também no superior, resguardadas as devidas especificidades? Um abraço! Joaci https://www.youtube.com/watch?v=SX8n-rYo_W0

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  • 17 de novembro de 2015 a 23:52
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    Professor, muito legal o seu texto!

    Vou confessar pro senhor que não gosto da universidade do jeito que tá. Faço engenharia só pra ter uma chance de ganhar dinheiro. Minhas aulas são ruins. Tem professor usando retroprojetor com as transparências que ele fez em 1900. Não sou aluno vagabundo não, professor Joaci. Estudo dois dias antes e vou bem. Mas sei que é pq tenho boa memória, só isso. Na semana seguinte esqueci tudo. Mas meu histórico tá lá bonzão!

    Parabéns pelo site! Ficou dahora!

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    • Joaci Pereira Furtado
      19 de novembro de 2015 a 13:18
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      Olá, Roger! Pois é, meus alunos também pensam o mesmo: com o diploma, acham que terão uma remuneração melhor. E olha que nem são da engenharia… De fato, o diploma de curso superior assegura ao menos que seu portador não passará fome. Mas, convenhamos, pra isso não é preciso cursar a universidade. Outro dia um colega aqui do blog encontrou anúncio de emprego para técnico (ensino médio, portanto) com remuneração de R$ 10 mil. Olha, Roger, precisamos entender o que “ganhar dinheiro” significa em nossas vidas, antes de saber por que cursamos a universidade. Hoje o ensino superior está bastante focado em formar ganhadores de dinheiro, mas descuidada em formar seres humanos. Todos os ganhadores de dinheiro que conheci — e olha que já estou neste planeta Terra há meio século — são pessoas que perderam a alma. Talvez porque esta realmente não valha nada para eles. Para mim, porém, é ela que importa (não no sentido místico, mas como o conjunto de características que fazem da pessoa um ser humano). Acho que a sua alma, aliás, está lhe dizendo que o que faz não é bom pra ela, pois logo você esquece o que estudou dois dias antes (e, cá entre nós, não estudamos pra daqui a dois dias, mas pra vida toda, se não, não tem sentido estudar). Só retemos o que amamos, Roger. Não adianta, o que não tem sentido pra nós logo é esquecido. Tem um valor apenas instrumental, imediato, como meio para conseguir algo. E não deveria ser assim: o saber é um fim em si mesmo. Saímos (ou deveríamos sair) melhores depois de aprender algo. Mas aprender pra valer, pra incorporar à alma. Do contrário, como lhe disso, dá nisso. Quanto ao professor ruim… Olha, vou lhe dizer que ele é bom pra você. Porque o mau professor deveria nos estimular a ser melhor que ele, não sentido da competição, que é estúpida, mas de ir atrás do que ele não é capaz de lhe ensinar. E creia: entre os professores, claro, há muitos que fazem o que não gostam. Pra acabar, recomendo que veja o depoimento de uma das pessoas mais sábias que já conheci e que nunca vi pessoalmente: Maria Lindalva, anônima camponesa de algum lugar do Nordeste. Preste bem atenção no que ela entende por felicidade. Um forte abraço do Joaci https://www.youtube.com/watch?v=Fb_Z-Ty1Eh4

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  • 20 de novembro de 2015 a 11:54
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    Caro professor Joaci, primeiramente meus parabéns! Adorei o texto e o site! Gostaria de agradecer pelos comentários que o senhor deixou aqui. Lendo-os e lendo o texto da Ana Cecília, resolvi enfrentar a minha família pra fazer o que eu realmente gosto: ensinar! Quero ser professora não uma fazedora de dinheiro! Muito obrigada!

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  • Joaci Pereira Furtado
    20 de novembro de 2015 a 18:07
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    Prezada Camila Steinenberg, você está me oferecendo um presente belíssimo… Não poderia querer algo mais belo e precioso. Vá em frente! Ensinar, mas ensinar pra valer, é criar seres humanos melhores, que farão o mundo melhor. Um grande abraço e muitas felicidades em sua escolha!

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  • 10 de dezembro de 2015 a 14:27
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    Outro ponto negativo é a distorção dos propósitos…ouvi colegas admitirem participar de trabalhos voluntários somente porque ganhariam horas para preencherem a carga horária exigida nas atividades extracurriculares…grande falha da universidade, que incentiva agir pelo interesse próprio até em ações de interesse social e comunitário. Muito bacana o texto!

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    • Joaci Pereira Furtado
      10 de dezembro de 2015 a 19:08
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      Arlete, também lamento, inclusive entre os professores, práticas que têm pouca ou nenhuma relação com o saber, e que às vezes valem mais, na matemática da pontuação no Lattes, que aquilo que define nosso ofício: dar aulas.

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      • Joaci Pereira Furtado
        10 de dezembro de 2015 a 19:22
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        Mas minha resposta pode passar a falsa impressão de que sou contra atividades extracurrilares ou extraclasse que não sejam estritamente conteudistas. Dependendo do tipo de trabalho voluntário, é claro que ela é bem-vinda e pode ser muito enriquecedora para o estudante, além de retornar para a sociedade aquilo que ela investe nele — sobretudo nos bolsistas e alunos de universidades públicas federais e estaduais.

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  • 9 de fevereiro de 2016 a 20:04
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    Texto maravilhoso! Melhor ainda é a atenção que o autor dá aos leitores.

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      • 12 de fevereiro de 2016 a 00:05
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        Joaci, estou lendo os seus textos hoje, pela primeira vez. E eu só estou deixando este comentário aqui porque eu senti a necessidade de dizer que a sua lucidez me encantou… Paz pra você, seus escritos são um presente a quem busca a Verdade da vida!

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        • Joaci Pereira Furtado
          12 de fevereiro de 2016 a 00:48
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          Muito obrigado, Maria!

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  • 11 de fevereiro de 2016 a 12:58
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    Eaí Professor Joaci, tudo joia? Cara, estou cursando perto da cidade em Ouro Preto, estou em Ouro Branco cursando Engenharia Mecatrônica, sai de Palmas – TO, onde fazia técnico em Mecatrônica pra seguir nessa área. Realmente, tudo bem que estou no primeiro período, mas fica sendo uma busca incessante e eterna de capacitação. Durante o técnico, fui estagiário numa empresa de telecomunicações… tipo, não precisava fazer 2 anos de técnico, pra saber mexer numa máquina daquelas. Era apenas leitura de manual de instruções… Aí, as vezes me pego pensando fora da caixinha de arranjar o emprego e ser o rico e tals, porque, como você falou, nesse sistema, a universidade deveria formar para a vida, afinal a vida não deveria se resumir a ser um escravo do trabalho, depois das 8 horas diárias, restam as 10 horas que você tem que saber viver. Minhas dúvidas acabam sendo como.

    Mas então professor, maravilhoso o seu texto. Espero poder rever mais artigos seus nesse “blog que acabei de conhecer mas já considero pacas…”

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    • Joaci Pereira Furtado
      11 de fevereiro de 2016 a 23:11
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      Oi, Freud Attilio! Obrigado por sua resposta tão franca e sincera, além dos elogios, que cabem também aos demais colegas do blog, especialmente o Rodrigo Ribeiro, que é quem teve a ideia e organizou tudo. Você tem razão: nem é preciso universidade para aprender a ganhar dinheiro. Veja quantos empresários bem sucedidos (seja lá o que isso signifique) que sequer têm o ensino médio… Ou então que se formaram apenas para ter um diploma ou ainda que atuam em áreas completamente diferentes de suas formações acadêmicas. Mas, claro, e infelizmente, muitos ingressam na universidade com essa perspectiva de enriquecimento ou de ascensão social — ou de acesso a certo padrão de consumo, como se isso fosse garantia de felicidade. A verdade, Freud (é este mesmo o seu nome?), é que precisamos de muito pouco para viver, do ponto de vista material. Termos uma cama limpa para dormir, tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias é o que basta. A felicidade, se ela existe, com certeza não está nas coisas, naquilo que temos, mas no que somos. Ocorre que isso — ser — é a coisa mais difícil. Muito mais difícil do que ter. Porque com o que somos é possível viver feliz uma vida materialmente sóbria. Olha, se me permite uma confissão, não troco nenhuma fortuna do mundo pelos momentos de alegria, carinho, ternura, solidariedade, afeto que experimento com as pessoas que amo. O resto é detalhe. Acho que era isso que a universidade deveria nos ensinar, entre outras coisas, e independentemente do curso. Continue lendo a gente! Forte abraço!

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  • 14 de fevereiro de 2016 a 00:12
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    Muito bom, pena que hoje passamos por um processo de formação idiotizante, não sei se é a culpa da nova geração que com tantas distrações se esqueceu do essencial ou da geração antiga que ocupada demais com seus problemas e ocupações se esqueceu de ensinar a geração antiga, a não deixar correr tão solto…

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    • Joaci Pereira Furtado
      14 de fevereiro de 2016 a 12:09
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      Oi, Henrique! Concordo: há um idiotismo difuso na sociedade contemporânea, mas acho que isso vem de meio século para cá, no mínimo, sobretudo com a popularização da televisão (no Brasil, desde os anos 1970, época em que muitos dos pais maduros de hoje eram crianças). Não acho que devemos culpar a geração, mas as condicionantes em que ela se formou. Por isso sou pelo controle social dos meios de comunicação. Rádios e TVs são concessões públicas, e isso significa que elas não podem exibir o que bem entendem. Uma redução drástica de programas que apenas idiotizam já seria uma boa ajuda. Outra seria fazer da escola, desde o ensino fundamental. um lugar onde realmente adquiríssemos ferramentas para LER O MUNDO, que é a proposta de blog. Por que não aprendemos a ver TV ou filtrar a internet nos tempos longos da educação? Afinal, passamos no mínimo 12 anos dentro dela, frequentemente aprendendo coisas absolutamente inúteis, quando não aprendendo a odiar a leitura e o estudo. E há esperanças, viu? Se duvida, veja só este vídeo (e com ele vai também um abraço): https://www.youtube.com/watch?v=SX8n-rYo_W0

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  • 16 de fevereiro de 2016 a 23:57
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    Olá professor Joaci!
    Adorei seu texto, e concordo inclusive com tudo que menciona! Tenho em mim a vontade de lecionar, inclusive ensino sem vinculo nenhum com a educação, ensino por amor mesmo, pelo amor em repassar o pouco que sei sobre matérias da saúde.
    Por mais que eu saiba que a cada dia esteja difícil lecionar, eu quero muito ser professora, inclusive mostrar a meus futuros alunos que aprender não é decorar, e sim que a aprendizagem vai por toda vida. Meu maior intuito é em especial mostrar e repassar que a saúde precisa de atenção, que devemos dar nosso melhor para o paciente como um todo, e sermos humanos com o próximo. Sou biomédica, atuou no setor de hematologia, e iniciei doutorado, e eu acredito que tudo pode melhorar sim!

    Obrigada pelo seu texo 🙂

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    • Joaci Pereira Furtado
      17 de fevereiro de 2016 a 11:48
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      Oi, Iara! É de gente assim que mundo precisa — e fico muito feliz ao ver que meu texto tem encontrado pessoas como você, que efetivamente acreditam na educação. E ainda mais na educação de futuros profissionais da saúde, preocupando-se com a humanização deles (o que me parece um paradoxo: humanizar quem cuida de humanos…). Continue firme no seu belíssimo e precioso propósito, que não é nada fácil (é nadar contra a corrente, não?). Deixo-lhe aqui um vídeo que certamente a inspirará bastante, se é que já não o conhece. Trata-se de QUANDO SINTO QUE JÁ SEI. E com ele vai meu caloroso e fraterno abraço: https://www.youtube.com/watch?v=HX6P6P3x1Qg

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  • 28 de abril de 2016 a 15:10
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    Muito bom texto professor, obrigado.

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  • 13 de junho de 2016 a 01:24
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    Professor, estudo na unesp e estou muito triste com a realidade que me rodeia. Alunos medíocres, professores mais medíocres ainda. Fui pedir material para me aprofundar num assunto e o professor, teoricamente a referência no país sobre aquilo, me reapondeu: procura no Google.
    É triste, muito triste, mas eu não acredito mais na ciência aqui no nosso país 🙁

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    • Joaci Pereira Furtado
      7 de julho de 2016 a 17:35
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      Olá, Anônimo(a)! Compreendo seu desencanto, mas acho que ele deveria ir além dessa experiência intersubjetiva tão ruim para entender o que acontece na universidade não só brasileira, mas contemporânea, praticamente no mundo todo: a universidade deixou de formar pessoas para formar profissionais. Ela está preocupada com o ensino, mas não com a aula; com a pesquisa, mas não com o conhecimento; e com a extensão, mas não com a intervenção. Quer dizer, a universidade precisa reinventar a aula para um público que não se identifica mais com aquela sala onde uma plateia em geral passiva ouve (ou finge ouvir) longo monólogo que não compreende ou não quer compreender. E não quer porque os professores desaprenderam a causar espanto. E sem espanto não há curiosidade. E sem curiosidade não há conhecimento. Quer dizer, os próprios professores se desinteressaram da aula porque foram induzidos, por agências de fomento e políticas públicas do Ministério da Educação, a valorizar a pesquisa (o que inclui publicação regular de artigos, orientação de mestrados e doutorados, cursos no exterior, desenvolvimento de projetos). A pesquisa, por sua vez, é medida pela quantidade de “produtos” que gera: patentes, novas tecnologias, artigos em periódicos científicos… E é essa quantidade que determinará o acesso do docente ao financiamento de novos projetos e pós-doutorados (bolsas). De modo que não me espanta o comportamento do professor que lhe indicou o Google: o ato de ensinar, que pressupõe generosidade, acolhimento, atenção ao outro foi esvaziado pelo produtivismo acadêmico. Há exceções, claro, e sugiro a você que as procure. O gesto desse professor é pequeno demais para você desistir de algo que, creio, é muito maior: a busca do saber. Obrigado por seu comentário, um forte abraço e… fique com a gente!

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  • 25 de junho de 2016 a 02:46
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    Universidade é uma farsa! Ilusão e sabemos disso! Persiste-se em pesquisa e na busca de um título de doutorado ou vaga de professor universitário por puro viés de confirmação (querer acreditar acima de qualquer coisa). Alguns suportam fazer pesquisa para rechear o currículo para concursos e outros suportam dar aulas esperando um dia entrar numa universidade federal para fazer pesquisa (outra decepção), já que dar aulas do nível médio pra baixo é pedir pra morrer (infelizmente as crianças chegam a universidade com quase a mesma cabeça e comportamento). Fiz graduação, mestrado e doutorado numa universidade federal, um ciclo de 10 anos. Sofri, vivi, assisti, e fiquei sabendo de todo tipo de trapaça, mesquinharia, molecagem, fofoquinhas, difamações, perseguição pra afetar meus orientadores, que não podiam ser afetados diretamente e tiveram seus orientandos atacados, ao melhor estilo “quebre as pernas dele”.

    Tive trabalhos roubados (artigos e patentes), mesmo ajudando a tantas pessoas pelo bem do princípio da multiplicação do conhecimento e colaboracionismo. Fiz parcerias com pessoas de outras instituições federais e tudo isso é um lixo. O meio acadêmico é uma mistura de Game of Thrones com Senado Federal. Só não rola dinheiro fácil. Muita sujeira, esquemas e conspirações a troco de nada (até parece que vão ganhar o Nobel). Não adianta trabalhar sério, vão te definir pela aparência, dinheiro, poder que acham que você tem, e enquanto tiver utilidade (que te fará ser muito “querido”).

    O meio acadêmico universitário não é um modelo para a sociedade. Não é um ambiente mais maduro, consciente, honesto, evoluído ou respeitador. É um reflexo da sociedade. Muitos dirão “mas em todo lugar é assim”. Questão então de avaliar o custo benefício, pois, de gari ninguém quer trabalhar (embora como gari você não gere ilusões, tem essa vantagem). Não se pode esperar nada de salvador para o país vindo desses “cérebros” que estão mais para intestino grosso da nação.

    Nesse ambiente tem mais respeito o professor que pega as alunas, o que exige ser chamado de doutor até pra tomar um café, o que acumula cargos pra praticar assédio moral, o que fala palavrão, o que faz festinhas e participa de grupos de whatsapp com os alunos sem finalidade científica ou acadêmica, o que rouba ideias e pesquisas até de alunos PIVIC, o que enrola a aula com recortes de figurinhas e colagem em nome da “didática” imbecilizante aprendida na licenciatura (onde por sinal boa parte do tempo se ensina a reduzir o conteúdo a 10% do total ou se faz propaganda comunista). Hoje tenho um currículo até bom (todos dizem e tenho criticismo pra saber) para concorrer a uma vaga numa federal, mas desisti. Mas o resultado nunca é proporcional ao esforço muito por culpa dessas trapaças a que se é vítima quando não se aceitar entrar em esquema.
    E nem falei das seleções de mestrado onde o valor da prova cai para 50% da nota (os outros 50% são de um currículo biônico montado pelos orientadores do aluno que já está na federal), tornando impossível um aluno que venha das particulares fazer mestrado numa federal.

    De nada vale ganhar o mundo e perder sua alma. A cada concurso que vejo está mais concorrido. Se em 2006 eram 5 candidatos por vaga eu já cheguei a ver 80 (claro que a maior parte desiste da prova no dia). Concursos arranjados (até os professores revelam aos alunos de confiança) numa frequência que deveria ser denunciado ao Fantástico (já que tem mais visibilidade nacional) só para usarem suas câmeras escondidas e deixar os senadores brasileiros menos desamparados nesse mar de lama. Secretários que roubam bolsas, ou exigem o primeiro mês da bolsa de cada aluno do PIBIC ao doutorado e deixam alunos de mãos atadas sem poder denunciar por medo de ficar sem renda ou para evitar que um conhecido ou parente perca a bolsa. Alunos de iniciação científica imbecis que compram brigas de seus orientadores e deixam de falar com os colegas que são orientados por outros professores. E pior, acham que se não agirem de acordo com essas práticas estão sendo otários, e a coisa assim se eterniza, nascendo mais um criminoso sendo incubado para o próximo concurso montado. E aí vem mais um(a) metido(a) a esperto(a) com seus recortes de figurinhas, palavrões, paqueras, faltas, propaganda do currículo e dos títulos.

    Para sobreviver você sempre precisará de um favor, que mais tarde será cobrado por um dos muitos secretários de satã que vivem nas universidades federais e te farão de otário para o resto da sua vida a acadêmica, que já dá demonstrações do inferno que pode ser ainda no estágio probatório. E você se verá com mais idade dizendo o já ouvi de muitos professores: “eu devia ter seguido outra carreira”, “eu devia ter feito direito”, “eu devia ter investido na bolsa”, “eu devia ter aberto um comércio”, “eu devia ter feito medicina”.

    O bem eu não sei se existe, mas o mal eu tenho certeza absoluta e não é teoria científica. Desistir dessa carreira amaldiçoada (que deveria em tese ser a mais nobre de todas) não é morrer na praia, é simplesmente não aceitar aportar em qualquer praia minada e com tubarões.

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    • Joaci Pereira Furtado
      7 de julho de 2016 a 17:50
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      Daniel, caro, como você mesmo diz, a universidade não está separada da sociedade — e, portanto, se parece com ela. A universidade pública brasileira está, sim, eivada de corrupção — e nem me refiro a roubo de bolsas e taxas de bancada, inclusive acobertadas pela própria universidade. Mas me parece inócuo nos limitarmos à denúncia ressentida, abandonando o barco porque ele está tomado de ratos. Nem acho que a coisa chegue a esse ponto. Se fosse, a universidade simplesmente não funcionaria. Como toda instituição pública, a universidade federal ou estadual é um espaço de disputa política (inclusive no sentido mais mesquinho do termo), e se as forças comprometidas com sua transparência e integridade abandonam a disputa, sabemos muito bem quem sai ganhando (e quem perde). Apesar de todos os problemas que cita ou descreve, há, sim, professores, funcionários e alunos que fazem a universidade valer a pena, sob todos os aspectos. Tenho certeza absoluta disso. E creio que a universidade melhora na medida que avança os mecanismos democráticos que a controlam. Houve avanços (ingressei na universidade, como graduando, em 1984, e tudo era bem mais obscuro e suspeito que hoje), mas ainda há muito por fazer. Obrigado por nos ler. E continue com a gente! Abraço. PS: Se quiser se aprofundar no assunto, recomendo vivamente que veja este vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=llXrRg4BaVg

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      • 28 de julho de 2016 a 21:34
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        Professor,

        Obrigado por responder, mas me perdoe. Eu perdi minha saúde com tudo isso. Sofri por anos com fortes dores de cabeça, gastrite nervosa (vomitando jatos e ficando dias em casa sozinho quase sem comer), ouvindo colegas e professores UNIVERSITÁRIOS chegando para mim e dizendo absurdos do tipo “eu não dava nada por você”, ou “você é o cachorrinho do professor fulano, faz tudo o que ele manda”, entre tantas coisas que fico doente só de lembrar.

        Essa vida não é pra mim. Em um raio de 1000 km o senhor não encontraria aluno ou pesquisador mais dedicado e engajado do que eu, nisso me garanto, e olha que tenho baixa autoestima. Tive depressão por quase 2 anos e sai sozinho.

        Me perdoe mesmo, mas preciso comer. Amor não põe a mesa. Até a percepção dos dias da semana perdi por ser um kamikaze trabalhando às cegas sem olhar nem de lado. Eu viveria mais 10 anos nesse ciclo infernal sem garantia de passar em um concurso e sendo desrespeitado em sala de aula. Minha área tem todos os problemas das outras multiplicado por 10 e mais outros problemas únicos.

        Não tenho talento pra política e nem sei resolver nada a base de esquemas. O único “esquema” que participei foi de conseguir que um colega me fizesse uma análise e em troca eu lhe faria outra para seus artigos, tese, tcc, dissertação, etc. Era minha forma de pagar favores, mas isso só me consumiu.

        Desejo muito boa sorte ao senhor que fica nessa luta, mas eu seria morto ou morreria com alguma doença. Há muitos casos de depressão do graduando ao líder de pesquisa. Muita gente desistindo da carreira acadêmica até para tricotar. É o meio mais doente que já vi. Não deveriam usar jalecos, deveria usar camisa de força. Quando a ter pena desse pessoal eles dão uma facada. A área que o senhor trabalha é mais fácil, garanto. Convivi com todos os cursos sem o menor preconceito, mas formei opiniões (não graças aos meus atos) e são universos diferentes.

        E aí vem mais problema… Se você acumular habilidades, capacidades, treinamento, conhecimento, dirão que você quer aparecer. Se você for o mais discreto ser vivente dirão que você está simulando humildade. Se você tentar ensinar de todas as formas possíveis, dirão que está querendo ser líder. Se você se afastar, dirão que quer ser especial pra mostrar que outros precisam de você.

        As pessoas em todo lugar só dominam uma arte hoje em dia: a de arranjar briga tentando definir quem é petralha ou reacionário. Sentem uma necessidade visceral de apontar e separar todos em grupos e depois iniciar uma guerra ou no mínimo deixar definidos os grupos para a guerra. Se no café do intervalo você disser que a disciplina típica dos colégios militares poderia melhorar a educação te chamam de pró-ditadura. Se você disser que o Ciência sem Fronteiras é uma boa ideia, mas mal executada e sem rigidez de regras, te chamarão de petralha. Nada faz sentido.

        Isso quando não aparecem as feministas reclamando de tudo. Eu queria ver as feministas criticando as colegas de pesquisa que de propósito (muitas vezes declarado e com orgulho se achando espertas) engravidam para que os colegas terminem suas teses e dissertações. O que elas têm a dizer das que fazem isso de propósito (não das inocentes, claro, sem querer)?

        Quem será esse Cristo disposto a entregar os podres do sistema e nunca mais passar em um concurso público e ainda ser vítima de calúnias de todo tipo? Política em ambiente universitário não resolve mais nada, é só esporte de quem gosta da coisa. O sistema só quer fazer rodas de conversa e viver num anacronismo da revolução russa, no tempo em que se ganhava 1 dólar pra trabalhar o dia inteiro sem direito trabalhista. Até Darwin está sujeito a ajustes. Por que Marx e cia são perfeitos? E por que falar tanto e não fazer nada? E por que quando se faz tem que sr revolução armada disfarçada de democracia com perseguição às minorias que apoiaram a tal revolução? Eu tenho até vergonha de tento ter me dedicado a universidade.

        E das que tiram sarro dos colegas homens que gostam de falar de temas relacionados a ciência (como é de se esperar de quem estar na universidade), chamando-os de nerds (um termo besta importado de estudantes imbecis americanos)? Maduras como são, ainda os acusam de não gostar de mulher. Bem maduro, não?
        O que elas diriam de mulheres que confundem o pessoal com profissional e tratam mal as outras colegas de pesquisa que são gordas, ou não penteiam os cabelos, ou usam uma roupa que não combinam com o sapato?
        Não falta leitura e luta pelo futuro pra quem mora distante de casa e come mal, dorme mal, mora onde não quer. O que elas têm a dizer de mulheres que convidam os colegas homens para sair e mesmo que os caras digam que precisam estudar, são queimados pelas colegas em rodinhas de conversa femininas onde o sujeito ganha fama de v… só por isso? Isso é ético? Isso é respeitoso ou honesto? Não dizem e não fazem nada, só ocupam uma vaga na universidade que praticamente se torna ociosa.

        O senhor quer que eu dedique minha vida a mudar isso?! Eu, o cara por quem ninguém dá nada?! O cara julgado mais pela aparência do que pela dedicação ao conhecimento? A luta pode até continuar, mas eu não faria diferença nem que fosse o cara mais inteligente, mais bonito, mais rico, com mais poder acadêmico do mundo. O sistema não quer mudar, ou mudaria de fato. Os 10% dos professores e pesquisadores da minha área que ainda permitem-nos uma ilusão (só ilusão mesmo) de que são íntegros logo se revelam os mais desgraçados seres com título de doutor.

        A vida desse pessoal é postar foto fútil no facebook pra um monte de pseudoamigos elogiarem, se comportando como adolescentes imaturos.

        Textos como esse que escrevi brotam aos montes na internet e todos os comentários são de pessoas se identificando. Por que será?

        Obs.: a bolsa que estão roubando dos alunos não é taxa de bancada, é a bolsa integral! O aluno que não entregar perde. Se denunciar, não ganha mais ou seus parentes e amigos também se dão mal. Já preparei documentos e fiz denúncia a meios jornalísticos, mas não obtive respostas ainda.

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        • Joaci Pereira Furtado
          4 de agosto de 2016 a 08:49
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          Daniel, caro, também me reconheço em muito do que relata em seu longo desabafo. Não nutro ilusões em relação à universidade — que é também lugar de trabalho e, como tal, perpassado por todo tipo de disputa e violência típica de qualquer lugar de trabalho. O que varia é a intensidade. Trabalhei em empresa privada de comunicação de 2001 a 2012 e posso lhe garantir que, resguardadas as diferenças, os horrores era essencialmente os mesmos: machismo, corrupção, violência simbólica ou psicológica, opressão… Bom, recomendo que veja o vídeo que lhe passei. Talvez ele possa lançar luz sobre o que faz a universidade ser, hoje, o que ela é — pra bem ou pra mal –, apontando o que a estrutura como esse ringue onde todos batem em todos. Recomendo também que leia esse curto e explosivo artigo, “Homolattes”. Acho que se reconhecerá nele também: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/544849-homolattes

          Um abraço!
          Joaci

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